30/07/2026
Foi um prazer colaborar com essa reportagem fora da curva da querida Dra. Adriana Ferreira - Terapia Ortomolecular para o Zatum Notícias. Texto muito bem feito e extremamente sensível. Vale a leitura.
Link da reportagem nos comentários.
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Há um tipo muito particular de nostalgia que não vem apenas da música em si, mas de tudo o que envolve o ato de ouvi-la em um disco de vinil. Não é somente saudade de uma canção, é saudade de um jeito de estar no mundo, mais lento, mais presente, mais inteiro. Quando a agulha toca o sulco e o primeiro chiado surge antes da música, alguma coisa na mente se organiza. É como se o corpo soubesse, antes mesmo da consciência, que ali começa um tempo diferente do tempo apressado do dia a dia.
Psicanaliticamente, esse fenômeno tem nome, Nostalgia Emocional é a reativação de um estado afetivo antigo, associado à segurança, vínculo e presença de alguém ou de algo que cuidava. O vinil, para muitas pessoas, carrega essa função, não porque o disco em si seja mágico, mas porque tudo o que ele exige de nós (paciência, atenção, delicadeza) reativa uma forma de se relacionar com o mundo que hoje se tornou rara.
A paciência como prática mental
Colocar um disco para tocar nunca foi um gesto instantâneo, é preciso tirá-lo da capa com cuidado, segurá-lo pelas bordas para não deixar marcas de dedo, posicionar a agulha com delicadeza e esperar. Esperar é a palavra-chave. Em um mundo que treinou nossa mente para a resposta imediata, um clique, um toque, um resultado, o vinil exige o oposto.
Esse cuidado manual tem um efeito direto sobre o psiquismo, ele funciona como uma espécie de ritual de ancoragem, parecido com o que se busca em práticas de atenção, o corpo realiza uma sequência de gestos lentos e repetidos, e a mente, acompanhando esse ritmo, desacelera junto. Não é a música que acalma primeiro, é o gesto de cuidado que a antecede.
Quem conviveu com discos de vinil sabe também da experiência de ouvir a mesma faixa arranhada, enroscada, repetindo o mesmo trecho várias vezes até que alguém se levantasse e movesse a agulha com delicadeza, havia ali uma tolerância à imperfeição que hoje quase desapareceu.