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discomplica_records Mais do que comprar e vender discos de vinil, aqui garimpamos e cuidamos desses tesouros musicais, até ele chegar à você!

10/09/2026

O recente cataclismo de energia de Elton John no Rock in Rio é uma bofetada na obsessão pela aposentadoria. Vestido em um terno amarelo fluorescente, o Sir de quase oitenta anos transformou o palco em manifesto. Vê-lo ao piano com fúria de debutante prova que certas almas não possuem o chip do recolhimento doméstico. É o triunfo do gerúndio sobre o pretérito. Eles não foram, eles estão sendo.

Essa teimosia não é exclusiva dos palcos. Na literatura, o fenômeno adquire contornos de afronta ao repouso dos guerreiros. Ignácio de Loyola Brandão, aos noventa anos, lançou romance que ironiza o risco das quedas, mostrando um fôlego criativo tão afiado quanto nos tempos de sua mítica “Zero". Ruth Rocha atinge noventa e cinco anos convertida em entidade que se recusa a virar estátua, mantendo o olhar agudo daquela que descobriu o segredo da juventude eterna em alguma página de livro. A mesma dedicação guiou Rachel de Queiroz até seus momentos finais, quando continuava tecendo suas crônicas com a firmeza de quem compreendia o Brasil como poucos.

Margaret Atwood, com oitenta e seis anos, vigia o horizonte geopolítico com textos que soam como profecias incômodas. Enquanto isso, Isabel Allende renova anualmente seu compromisso com a ficção, iniciando romances todo dia oito de janeiro. Há também os reclusos que trabalham no escuro. Dalton Trevisan, o implacável Vampiro de Curitiba, passou dos noventa destilando contos que parecem navalhadas. E Thomas Pynchon caminha para os noventa anos escondido do mundo, rindo da nossa necessidade de explicações.

Eles entenderam que a verdadeira vocação não é um emprego do qual se pede demissão após trinta anos de serviços, mas uma condição crônica da existência. A velhice, para essa linhagem de operários do belo, não representa o crepúsculo ou o momento de cuidar de orquídeas. É o período em que a técnica alcançou a total liberdade da imaginação, deixando o público com a deliciosa obrigação de aplaudir o espetáculo que teima em não terminar.

✍️📷 Cris Attab

09/09/2026

Ela se chama Aurora, é dócil e se perdeu dia 07/09.

Vamos compartilhar para ajudar Gabriel e Aurora a se reencontrarem!

29/08/2026

28/08/2026

27/08/2026

Analisar Charles Bukowski sob a ótica da literatura tradicional é um disparate que faria o próprio rir e cuspir no chão. Sua escrita direta era um espelho nu e cru de sua realidade, que nada tinha de romântica. O que muita gente nem sabe, no meio de tanto uísque e amores baratos, é que ele tinha um gosto refinado para a música erudita. Passava madrugadas datilografando compulsivamente enquanto ouvia Beethoven, Bach ou Mahler em um rádio caindo aos pedaços. Como se a pureza clássica o ajudasse a digerir a podridão dos subempregos e das calçadas sujas de Los Angeles.

Por outro lado, Bukowski tinha um desprezo profundo pelo pop comercial e pelos modismos. Achava os rituais modernos uma tremenda cafonice. A ironia é que a cultura pop que ele detestava acabou caindo de joelhos aos seus pés. O realismo sujo de sua prosa capturou a mente de músicos que ele provavelmente mandaria calar a boca.

Bandas de rock e artistas alternativos transformaram o escritor em uma espécie de santo padroeiro dos desajustados. O U2 usou versos dele como inspiração na faixa “Dirty day". Os Red Hot Chili Peppers citaram seu nome na canção “Mellowship Slinky in B Major”. O Modest Mouse compôs uma música chamada “Bukowski”, onde o vocalista questiona, com o típico humor ácido que Chinaski aplaudiria: "Quem no mundo iria querer ser um babaca desses?".

Mas ninguém entendeu o Velho Safado tão bem quanto Tom Waits, que parecia o reflexo de Bukowski esculpido em uma voz de britadeira e cigarro sem filtro. Em "Frank's wild years", Waits capturou aquela ideia de que são os pequenos contratempos diários, e não as grandes guerras, que enlouquecem o homem. Os dois chegaram a se encontrar para beber. Um duelo de titãs do balcão que Waits descreveu como "beber com um pirata rugindo".

Grandes astros criarem santuários líricos para um rabugento que preferia a companhia de Brahms à de seres humanos vivos é a piada final perfeita. E ele certamente estaria cobrando os direitos autorais para pagar a próxima garrafa.




23/08/2026

Encontramos hoje essa pérola: o primeiro LP do Elvis lançado no Brasil, pela RCA Victor.

Faz até valer a pena trabalhar no domingo!

20/08/2026

Encontrar o livro "Rostos e Gostos da Música Popular Brasileira", de 1979, é abrir uma cápsula do tempo com sutil subversão. Tárik de Souza e Elifas Andreato cometeram esse heroísmo no apagar das luzes dos anos 70, quando a ditadura tentava ensaiar aquela "abertura lenta, gradual e segura", que de segura só tinha o medo de que o general mudasse de ideia antes do café.

O texto-exposição é um inventário estético de um Brasil que sangrava pelas bordas, mas teimava em harmonizar o choro em tom menor. Falar de MPB sob o manto do AI-5 era uma atividade de alto risco. O regime fardado mantinha uma obsessão por metáforas. Censores passavam noites em claro tentando decifrar se o "sol" da canção era a aurora socialista ou apenas um dia bonito no Rio. Na dúvida, censuravam o sol. Os artistas viraram mestres do drible, jogando poesia fina nas canelas da ignorância estatal.

Antes deste, a dupla já havia desenvolvido uma cumplicidade ímpar na emblemática coleção "História da Música Popular Brasileira", da Abril Cultural. Ali, Tárik atuou como um dos principais jornalistas e pesquisadores, enquanto Elifas assumiu a direção de arte dos fascículos. Essa bagagem deságua em "Rostos e Gostos". A escrita de Tárik capta a gincana do absurdo com precisão, enquanto o traço de Elifas amarra as pontas da resistência, que desenhava com a urgência de quem precisava registrar nossa cultura antes que o Dops resolvesse mudar as feições de alguém à força. É denúncia revestida de lirismo gráfico. Crônica de um período bizarro onde artistas e jornalistas com uma fresta de consciência faziam as vezes de guerrilheiros.

A obra não é só um memorial. É o diário de bordo de uma nau que se recusou a afundar no silêncio das armas. Lê-la hoje evoca uma ironia profunda. Os generais queriam fuzilar a imaginação, o que fez surgir as melhores produções da nossa história. Uma leitura necessária e deliciosamente incômoda para os tempos de ontem e de hoje.

✍️ e 📷 Cris Attab


18/08/2026

Dizem que os opostos se atraem, mas no mundo do som de alta fidelidade, o amor verdadeiro nasce da separação de bens. Como prova este que é um dos casamentos mais bem-sucedido da história: o pré-amplificador Rotel RC-1070 e o amplificador de potência RB-1070.

Explico: colocar o processamento de som e a força bruta na mesma caixa é igual a colocar o Tinder e o boleto do condomínio no mesmo aplicativo — dá interferência e alguém sai estressado. Por isso, a Rotel criou essa dupla dinâmica que funciona melhor que muito casamento por aí:

O RC-1070 é o cérebro (e a elegância): Ele recebe o sinal, limpa a bagunça, conversa com o seu toca-discos como se estivessem em um jantar à luz de velas e diz: "Deixa comigo que eu organizo a casa". É a finesse em forma de botão de volume.

O RB-1070 é o músculo (e a pura emoção): Com 130 watts por canal, ele não está para brincadeira. Ele pega o sinal limpinho que o parceiro mandou e empurra as suas caixas de som com a energia de quem acabou de tomar três expressos duplos. Os graves saem tão firmes que batem direto no peito.

O resultado? Um som incrivelmente detalhado que te faz descobrir que aquela sua música favorita de 1994 tinha um triângulo ao fundo que você nunca tinha ouvido. É o tipo de som que te faz sentar no sofá e esquecer da vida, da louça na pia e até das notificações do celular.

Se o seu setup atual está meio chocho e sem vida, está na hora de apresentar essa dupla para a sua sala. Suas visitas vão achar que você virou maestro, e os seus vizinhos... bom, os vizinhos vão passar a conhecer o seu bom gosto musical, queiram eles ou não.

14/08/2026

Incluído no livro "1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer", organizado por Robert Dimery, Revolver (66) é um clássico absoluto que não pode faltar em nenhuma coleção.

13/08/2026

Há livros que pedem silêncio, concentração e um balde de café. “Assim Falou Zaratustra”, de Friedrich Nietzsche, pede tudo isso e um antiácido. Em 1883, ele decidiu que a humanidade andava muito sonolenta e resolveu acordá-la com um soco no estômago, misturando aforismos cortantes com uma poesia quase bíblica, mas invertida. Um sermão filosófico escrito por alguém que desconfiava profundamente dos sermões. O profeta do título desce da montanha para anunciar que o "Super-homem" está chegando e que a moral tradicional virou poeira, exigindo do leitor a destruição de velhos ídolos para atingir uma liberdade intelectual avassaladora e genial. É filosofia, mas com a delicadeza de uma banda de rock entrando no palco às duas da manhã.

Pouco depois, em 1896, Richard Strauss olhou para aquele monumento de niilismo e pensou: "Isso daria uma bela sinfonia". Deu. Com o poema sinfônico homônimo, cuja explosão de metais da abertura todo mundo associa a macacos jogando ossos para o alto no cinema, Strauss conseguiu traduzir a megalomania nietzschiana em decibéis. Uma arquitetura sonora brilhante, que capta o drama do eterno retorno e recria a tensão entre caos, transcendência, conflito e buscas com harmonias que desafiam a gravidade e texturas orquestrais que fazem o ouvinte se sentir no topo do mundo, ou pelo menos no topo de um ego colossal.

Ambas as obras trazem uma seriedade absoluta que beira o ridículo, mas que funciona perfeitamente por ser executada com pura genialidade artística. Nietzsche escreve com o fígado. Strauss rege com o coração. A conexão entre a tinta de um e as notas do outro cria um díptico cultural insuperável. São dois titãs rindo do abismo, e o abismo, sem saber o que fazer, aplaude de pé. Se a filosofia de Nietzsche nos liberta das velhas amarras, a música de Strauss nos dá as asas para voar bem longe delas de forma totalmente definitiva e real.

Endereço

Rua Das Camélias
São Paulo, SP

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