06/09/2026
ÂMAGO: JORNADA HERÓICA - EP. 23: MORE FUN COMICS 11
(JULHO DE 1936)
A capa de julho de 1936 mostra um garoto saltitante, escola vazia ao fundo, livros e papéis voando pelos ares — uma cena de pura felicidade que, à primeira vista, parece capturar o que muita criança da época sentia ao ouvir o sinal do último dia de aula. Em vez de representar uma cena de aventura, mistério ou ação, a edição — publicada pela More Fun Inc. — trouxe na capa uma imagem que lembra o início das férias de verão, o que pode ser lido como uma coincidência com o calendário escolar americano. A arte é assinada por Vincent Sullivan, que na época acumulava funções de artista de capa e desenhista de histórias internas, como aconteceria também com outros nomes daquela mesma edição.
Esta é a décima primeira edição de uma revista que, poucos meses antes, ainda se chamava New Fun Comics — rebatizada primeiro como More Fun a partir do número 7 e depois como More Fun Comics a partir do número 9. A revista foi originalmente lançada por Malcolm Wheeler-Nicholson, cuja National Allied Publications viria a se tornar, anos depois, a DC Comics; a edição #11 especif**amente traz "More Fun, Inc." no indicia como publisher. O contexto financeiro por trás dessa edição não era nada glamouroso: o título anterior, New Fun, vinha enfrentando dificuldades comerciais e teve seu nome encerrado no número 6 — com data de capa de outubro de 1935, embora já estivesse à venda desde 13 de setembro daquele ano —, dando lugar a More Fun já no número seguinte. Nesse período, Harry Donenfeld — impressor e distribuidor que se tornaria cada vez mais importante para os negócios de Wheeler-Nicholson — passou a ocupar um papel central nessa estrutura, num envolvimento que, ao longo dos dois anos seguintes, coincidiria com a perda gradual do controle de Wheeler-Nicholson sobre o empreendimento, processo que se consolidaria em 1937–38, com a formação da Detective Comics e a posterior aquisição dos ativos em leilão de falência.
O grande atrativo desta edição, sob a ótica retrospectiva, é a história de Doutor Oculto enfrentando um lobisomem. Um jovem desesperado bate à porta de Oculto pouco antes da meia-noite, é dispensado pelo mordomo Jenkins, e ao sair sob o luar se transforma em lobo; Oculto reconhece o uivo, arma-se com um símbolo místico ancestral e p**a pela janela para interceptar a criatura no momento em que ela ataca uma jovem, neutralizando-a e levando-a, já dócil, para seu laboratório. A história tinha um detalhe curioso de bastidores: nela, Siegel assinava como "Leger" e Shuster como "Reuths" — pseudônimos formados por anagramas parciais de seus próprios sobrenomes —, os mesmos rapazes de Cleveland que, dois anos depois, estreariam o Superman nos quadrinhos. O hábito de assinar sob pseudônimo era, por si só, uma curiosidade reveladora da fase pré-Superman da dupla.
É tentador ver essa fase do Doutor Oculto como uma espécie de laboratório de ideias para o que viria a ser o maior fenômeno da dupla. Os criadores já trabalhavam, desde 1933, com a ideia de um personagem de força sobre-humana, e é nesse contexto que muitos leitores e pesquisadores enxergam Doutor Oculto como um precursor. Em fases posteriores da série, Shuster chegaria a vestir o personagem com capa e cinto místico, brandindo espada — um visual que lembra de perto a capa do Superman. Essa transformação de guarda-roupa pertence a números futuros, e não a este de número 11, mas mostra que elementos visuais que se tornariam icônicos já circulavam dentro do próprio universo de Oculto.
Doutor Oculto não era a única atração da edição. A revista trazia ainda o décimo primeiro capítulo de "The Gavonian Affair", com roteiro de Malcolm Wheeler-Nicholson e arte de W. C. Brigham, acompanhando a personagem Sandra tentando escapar das forças de Tauru; a nona parte de "Prince of Patrania", assinada pelo próprio Vincent Sullivan, na qual o marinheiro Pincus é jogado ao mar; e a estreia de "Island Adventure", com roteiro e arte de Russell Cole, assinando como Alger, deixando Woozy Watts largado numa ilha desconhecida, apenas com um barco, um casaco e um chapéu, seguindo o rastro de pedaços de pano vermelho deixado por alguém pedindo socorro. Vale notar que Cole assinava sua outra série da revista, sobre o carregador Sam, sob o mesmo pseudônimo "Alger" — um lembrete de que assinar sob pseudônimo não era exclusividade de Siegel e Shuster nessa edição. Entre outras histórias da edição, estavam o oitavo capítulo de "Damsel In Distress", com Jack Woods enfrentando Pancho Villa à beira de um precipício, e "A Chance For Life", capítulo da série de ficção científ**a Don Drake on the Planet Saro, no qual o herói recebe a chance de reconquistar a liberdade se conseguir derrotar um novo monstro que ataca a cidade.
Um detalhe que costuma passar despercebido em resenhas mais superficiais desta edição é que, embora Doutor Oculto já viesse sendo publicado desde New Fun #6 — e a história do lobisomem seja, portanto, uma continuação, não uma estreia —, a edição #11 traz sim uma estreia de Siegel e Shuster: "Calling All Cars, Starring Sandy Kean and the Radio Squad". É uma história policial de duas páginas apresentando o oficial Sandy Kean e seu carro de patrulha equipado com rádio, e, nela, ao contrário do que acontecia em Doutor Oculto, Siegel e Shuster assinam com seus próprios nomes. A série seria posteriormente renomeada simplesmente "Radio Squad" e apareceria na revista, com algumas interrupções, até o número 87. Há indícios de que Siegel tenha se inspirado na tira de jornal "Radio Patrol", que já circulava desde 1933. É um dado revelador sobre a rotina de trabalho da dupla naquele período pré-Superman: colocada lado a lado com a continuação de uma história sobrenatural assinada sob pseudônimo, essa estreia policial assinada com nome próprio mostra os dois testando ao mesmo tempo mais de um gênero e mais de uma forma de se apresentar ao leitor.
Esta edição também marca um pequeno divisor de águas silencioso para duas séries de aventura histórica: é a primeira aparição de "Three Musketeers", assinada por Malcolm Wheeler-Nicholson e Sven Elven, e ao mesmo tempo o último número de "Treasure Island", da mesma dupla, cuja adaptação só havia coberto o equivalente às duas primeiras partes do romance de seis partes, embora fosse já o sétimo episódio publicado na revista — um descompasso entre a contagem de capítulos da série e o avanço real da história adaptada. Nesta edição específ**a, um seriado literário chega ao fim sem conclusão narrativa exatamente quando outro começa. Wheeler-Nicholson, aliás, atuava como editor da maior parte do conteúdo da revista, acumulando funções editoriais e de roteirista.
É importante contextualizar o leitor de hoje sobre um aspecto desconfortável, mas historicamente relevante: quadrinhos americanos de 1936 carregavam, com frequência, estereótipos raciais e étnicos hoje reconhecidos como ofensivos, refletindo os preconceitos correntes da sociedade da época — algo que bases de referência ligadas à própria DC já sinalizam explicitamente ao catalogar esse acervo histórico, destacando que tais representações eram equivocadas então e continuam sendo hoje. Esse não é um detalhe exclusivo desta edição, mas sim um traço estrutural do quadrinho americano das primeiras décadas, e vale a menção para que o leitor compreenda o material dentro de seu tempo, sem naturalizar o que ele carrega. O ano de 1936 era, também, um período de crise econômica generalizada nos Estados Unidos, ecos ainda vivos da Grande Depressão — um cenário econômico que ajuda a entender o ambiente difícil em que operava uma editora recém-nascida, tentando vender fantasia e aventura por dez centavos em meio a uma estrutura de negócios na qual impressão e distribuição tinham papel fundamental.
Olhando à distância, há algo comovente em folhear esta edição sabendo o que ainda estava por vir e o que já se perdera. O garoto p**ando de alegria na capa, livre da escola por um verão inteiro, não fazia ideia de que, dentro daquelas páginas, dois rapazes ainda desconhecidos rabiscavam — ora sob pseudônimo, numa história de lobisomem que já vinha de edições anteriores, ora com o próprio nome, numa estreia policial recém-lançada — os primeiros rascunhos de um mito que mudaria para sempre a cultura pop**ar. E Malcolm Wheeler-Nicholson — fundador da National Allied Publications, empresa que, por meio de sucessivas transformações societárias ao longo dos anos seguintes, viria a dar origem à DC Comics —, tampouco sabia o quanto seu papel no dia a dia daquela história acabaria ofuscado pelo que viria depois. More Fun Comics #11 não é lembrada por grandes reviravoltas ou vendas espetaculares — é lembrada porque, entre a continuação de um lobisomem e a estreia de um carro de polícia com rádio, batia, silenciosa, a semente de tudo o que a indústria dos quadrinhos se tornaria depois.