03/08/2026
ÂMAGO: JORNADA HERÓICA - EP. 20: THE COMICS MAGAZINE / FUNNY PAGES 2
A capa mostra o título duplo que o leitor via na banca: "The Comics Magazine" em cima, "Funny Pages" logo abaixo, em tamanho bem mais destacado. A cena é pastelão puro — um homem de chapéu de palha derruba algo tinta vermelha, sobre outro personagem coberto da cabeça aos pés, enquanto um terceiro observa e ri escancarado, com os balões "HAW! HAW! HAW!" e "HA HA". Embaixo, a frase "Absolutely the Nuts" era gíria comum nos Estados Unidos dos anos 1930 para dizer que algo era "o máximo". A capa é creditada a Sheldon Mayer, nome que anos depois se tornaria editor decisivo na história da DC Comics, mas que em junho de 1936 ainda era só mais um desenhista contratado entregando uma piada visual, em uma revista de 10 centavos.
Por dentro, a edição reúne uma variedade de histórias de humor, aventura, faroeste e mistério, ao lado de textos e pequenas seções fixas, compondo uma revista deliberadamente variada — e, curiosamente, essa mistura de nome já começava a se anunciar por fora: o título duplo da capa contrastava com a ficha técnica interna, que continuava chamando a publicação apenas de "The Comic Magazine". O conteúdo do #1 e #2 vem do inventário da National Allied Publications, a editora do major Malcolm Wheeler-Nicholson (embrião do que se tornaria a DC Comics). O contexto ajuda a explicar essa origem: William Cook e John Mahon, fundadores da Comics Magazine Company, eram ex-funcionários dessa editora e saíram dela em março de 1936, meses antes de lançar a própria revista. Sobre o motivo exato de tanto material ter migrado junto com eles não há certeza documentada. Hipoteticamente, esse material tenha servido para compensar salários atrasados, num momento em que a NAP vivia aperto financeiro. É importante separar as duas coisas: o dado catalográfico é confirmado, a explicação sobre salários é hipótese histórica.
Entre as histórias de aventura, a mais elaborada é "The Golden Idol", de Tom Cooper, sobre um explorador acusado injustamente de roubar a joia sagrada de uma tribo sul-americana. A parte desenhada é apresentada sem diálogos ou texto narrativo convencional, precedida por uma introdução em prosa que avisa ao leitor: essa é uma experiência nova, e os editores dizem se orgulhar de serem os primeiros a oferecer esse estilo de narrativa, perguntando diretamente se o público quer mais histórias assim — um raro caso de decisão editorial exposta ao leitor em tempo real, num momento em que a linguagem dos quadrinhos ainda tateava suas próprias regras. O mesmo Tom Cooper assina ainda "Capt. Tripe", comédia náutica interrompida em pleno motim com um "TO BE CONTINUED", e "The Black Lagoon", aventura submarina que abre avisando que o mergulhador Bill Horton "acaba de fazer sua primeira inspeção na Lagoa Negra" — três tramas bem diferentes entre si, todas da mesma mão, mostrando como um único desenhista sustentava boa parte do conteúdo de aventura da revista.
Ao lado dessas, corre "The Further Adventures of Jane and Johnny", de W. M. Allison, faroeste em capítulos que também termina em suspense, com o vilão Rio Red mirando o rifle contra o ranger Captain Bill. São histórias continuadas deixadas propositalmente em aberto, com o desfecho suspenso enquanto o restante da revista seguia com outras tramas independentes.
O humor da edição revela bem o espírito da época. "Freddie Bell – He Means Well", de Matt Curzon, satiriza os oradores de esquina comuns nas ruas americanas durante a Grande Depressão — um agitador que abre gritando "Down with capitalism!" e vai empilhando palavras de ordem contraditórias só porque rimam, até acabar preso e sem calças. "Loony Louie – The Fire Chief" constrói uma piada inteira em cima de seguro contra incêndio, e "Evidence Eddy", de R. G. Leffingwell, quebra a quarta parede: o detetive, em plena investigação, chega a comentar que é "amigo pessoal do cartunista" para justificar por que a chuva parou bem na hora certa da cena — um recurso metalinguístico raro numa tira policial de humor de 1936. Vale registrar, sem meias palavras, que parte do humor desta edição — casos de "Koko" e "Porkchops 'n Gravy" — se apoia em caricaturas raciais estereotipadas, prática comum nas revistas de humor americanas da época e hoje reconhecida como um retrato incômodo daquele momento histórico.
Um detalhe editorial simpático é a seção fixa "T'ain't So!", de causos mentirosos enviados por leitores — nesta edição, creditada a um tal L. Soutter, de Ogden, Pensilvânia, contando como livrou a própria casa de formigas explodindo-a com dinamite. A revista explicava a mecânica no próprio cabeçalho: quem mandasse a mentira mais engraçada e fosse aprovado ganhava um dólar e a arte original de volta.
Entre as assinaturas menores da edição, dois nomes se destacam por razões opostas. Jerome Siegel e Joseph Shuster assinam "Federal Agent", estreia do agente Bart Regan numa trama em que ele rastreia um falsificador mantido refém e forçado a produzir matrizes de dinheiro falso. E, no fim da revista, um ainda desconhecido Walt Kelly assina "Cannonball Jones", tira muda de quatro quadros que abre com a legenda "Balmy is the day and Cannonball trips gayly thru the jungle", sobre um "bebê" forçudo que defende um macaquinho de um gorila valentão — um trabalho tão modesto quanto qualquer outro da edição, sem nenhum destaque especial dado a ele pelos editores da época.
É justamente esse anonimato compartilhado que torna a edição interessante hoje: nenhuma das histórias recebeu tratamento de capa ou qualquer aviso de que aquele número guardava algo memorável. O que resta é o próprio papel, envelhecido pelo tempo, contando por si só como se fazia quadrinho numa época em que essas revistas eram concebidas para passar rapidamente pelas bancas — e não para permanecer como documentos de uma indústria que ainda estava descobrindo o que poderia ser.