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ÂMAGO: JORNADA HERÓICA - EP. 23: MORE FUN COMICS 11(JULHO DE 1936)A capa de julho de 1936 mostra um garoto saltitante, e...
06/09/2026

ÂMAGO: JORNADA HERÓICA - EP. 23: MORE FUN COMICS 11
(JULHO DE 1936)

A capa de julho de 1936 mostra um garoto saltitante, escola vazia ao fundo, livros e papéis voando pelos ares — uma cena de pura felicidade que, à primeira vista, parece capturar o que muita criança da época sentia ao ouvir o sinal do último dia de aula. Em vez de representar uma cena de aventura, mistério ou ação, a edição — publicada pela More Fun Inc. — trouxe na capa uma imagem que lembra o início das férias de verão, o que pode ser lido como uma coincidência com o calendário escolar americano. A arte é assinada por Vincent Sullivan, que na época acumulava funções de artista de capa e desenhista de histórias internas, como aconteceria também com outros nomes daquela mesma edição.

Esta é a décima primeira edição de uma revista que, poucos meses antes, ainda se chamava New Fun Comics — rebatizada primeiro como More Fun a partir do número 7 e depois como More Fun Comics a partir do número 9. A revista foi originalmente lançada por Malcolm Wheeler-Nicholson, cuja National Allied Publications viria a se tornar, anos depois, a DC Comics; a edição #11 especif**amente traz "More Fun, Inc." no indicia como publisher. O contexto financeiro por trás dessa edição não era nada glamouroso: o título anterior, New Fun, vinha enfrentando dificuldades comerciais e teve seu nome encerrado no número 6 — com data de capa de outubro de 1935, embora já estivesse à venda desde 13 de setembro daquele ano —, dando lugar a More Fun já no número seguinte. Nesse período, Harry Donenfeld — impressor e distribuidor que se tornaria cada vez mais importante para os negócios de Wheeler-Nicholson — passou a ocupar um papel central nessa estrutura, num envolvimento que, ao longo dos dois anos seguintes, coincidiria com a perda gradual do controle de Wheeler-Nicholson sobre o empreendimento, processo que se consolidaria em 1937–38, com a formação da Detective Comics e a posterior aquisição dos ativos em leilão de falência.

O grande atrativo desta edição, sob a ótica retrospectiva, é a história de Doutor Oculto enfrentando um lobisomem. Um jovem desesperado bate à porta de Oculto pouco antes da meia-noite, é dispensado pelo mordomo Jenkins, e ao sair sob o luar se transforma em lobo; Oculto reconhece o uivo, arma-se com um símbolo místico ancestral e p**a pela janela para interceptar a criatura no momento em que ela ataca uma jovem, neutralizando-a e levando-a, já dócil, para seu laboratório. A história tinha um detalhe curioso de bastidores: nela, Siegel assinava como "Leger" e Shuster como "Reuths" — pseudônimos formados por anagramas parciais de seus próprios sobrenomes —, os mesmos rapazes de Cleveland que, dois anos depois, estreariam o Superman nos quadrinhos. O hábito de assinar sob pseudônimo era, por si só, uma curiosidade reveladora da fase pré-Superman da dupla.

É tentador ver essa fase do Doutor Oculto como uma espécie de laboratório de ideias para o que viria a ser o maior fenômeno da dupla. Os criadores já trabalhavam, desde 1933, com a ideia de um personagem de força sobre-humana, e é nesse contexto que muitos leitores e pesquisadores enxergam Doutor Oculto como um precursor. Em fases posteriores da série, Shuster chegaria a vestir o personagem com capa e cinto místico, brandindo espada — um visual que lembra de perto a capa do Superman. Essa transformação de guarda-roupa pertence a números futuros, e não a este de número 11, mas mostra que elementos visuais que se tornariam icônicos já circulavam dentro do próprio universo de Oculto.

Doutor Oculto não era a única atração da edição. A revista trazia ainda o décimo primeiro capítulo de "The Gavonian Affair", com roteiro de Malcolm Wheeler-Nicholson e arte de W. C. Brigham, acompanhando a personagem Sandra tentando escapar das forças de Tauru; a nona parte de "Prince of Patrania", assinada pelo próprio Vincent Sullivan, na qual o marinheiro Pincus é jogado ao mar; e a estreia de "Island Adventure", com roteiro e arte de Russell Cole, assinando como Alger, deixando Woozy Watts largado numa ilha desconhecida, apenas com um barco, um casaco e um chapéu, seguindo o rastro de pedaços de pano vermelho deixado por alguém pedindo socorro. Vale notar que Cole assinava sua outra série da revista, sobre o carregador Sam, sob o mesmo pseudônimo "Alger" — um lembrete de que assinar sob pseudônimo não era exclusividade de Siegel e Shuster nessa edição. Entre outras histórias da edição, estavam o oitavo capítulo de "Damsel In Distress", com Jack Woods enfrentando Pancho Villa à beira de um precipício, e "A Chance For Life", capítulo da série de ficção científ**a Don Drake on the Planet Saro, no qual o herói recebe a chance de reconquistar a liberdade se conseguir derrotar um novo monstro que ataca a cidade.

Um detalhe que costuma passar despercebido em resenhas mais superficiais desta edição é que, embora Doutor Oculto já viesse sendo publicado desde New Fun #6 — e a história do lobisomem seja, portanto, uma continuação, não uma estreia —, a edição #11 traz sim uma estreia de Siegel e Shuster: "Calling All Cars, Starring Sandy Kean and the Radio Squad". É uma história policial de duas páginas apresentando o oficial Sandy Kean e seu carro de patrulha equipado com rádio, e, nela, ao contrário do que acontecia em Doutor Oculto, Siegel e Shuster assinam com seus próprios nomes. A série seria posteriormente renomeada simplesmente "Radio Squad" e apareceria na revista, com algumas interrupções, até o número 87. Há indícios de que Siegel tenha se inspirado na tira de jornal "Radio Patrol", que já circulava desde 1933. É um dado revelador sobre a rotina de trabalho da dupla naquele período pré-Superman: colocada lado a lado com a continuação de uma história sobrenatural assinada sob pseudônimo, essa estreia policial assinada com nome próprio mostra os dois testando ao mesmo tempo mais de um gênero e mais de uma forma de se apresentar ao leitor.

Esta edição também marca um pequeno divisor de águas silencioso para duas séries de aventura histórica: é a primeira aparição de "Three Musketeers", assinada por Malcolm Wheeler-Nicholson e Sven Elven, e ao mesmo tempo o último número de "Treasure Island", da mesma dupla, cuja adaptação só havia coberto o equivalente às duas primeiras partes do romance de seis partes, embora fosse já o sétimo episódio publicado na revista — um descompasso entre a contagem de capítulos da série e o avanço real da história adaptada. Nesta edição específ**a, um seriado literário chega ao fim sem conclusão narrativa exatamente quando outro começa. Wheeler-Nicholson, aliás, atuava como editor da maior parte do conteúdo da revista, acumulando funções editoriais e de roteirista.

É importante contextualizar o leitor de hoje sobre um aspecto desconfortável, mas historicamente relevante: quadrinhos americanos de 1936 carregavam, com frequência, estereótipos raciais e étnicos hoje reconhecidos como ofensivos, refletindo os preconceitos correntes da sociedade da época — algo que bases de referência ligadas à própria DC já sinalizam explicitamente ao catalogar esse acervo histórico, destacando que tais representações eram equivocadas então e continuam sendo hoje. Esse não é um detalhe exclusivo desta edição, mas sim um traço estrutural do quadrinho americano das primeiras décadas, e vale a menção para que o leitor compreenda o material dentro de seu tempo, sem naturalizar o que ele carrega. O ano de 1936 era, também, um período de crise econômica generalizada nos Estados Unidos, ecos ainda vivos da Grande Depressão — um cenário econômico que ajuda a entender o ambiente difícil em que operava uma editora recém-nascida, tentando vender fantasia e aventura por dez centavos em meio a uma estrutura de negócios na qual impressão e distribuição tinham papel fundamental.

Olhando à distância, há algo comovente em folhear esta edição sabendo o que ainda estava por vir e o que já se perdera. O garoto p**ando de alegria na capa, livre da escola por um verão inteiro, não fazia ideia de que, dentro daquelas páginas, dois rapazes ainda desconhecidos rabiscavam — ora sob pseudônimo, numa história de lobisomem que já vinha de edições anteriores, ora com o próprio nome, numa estreia policial recém-lançada — os primeiros rascunhos de um mito que mudaria para sempre a cultura pop**ar. E Malcolm Wheeler-Nicholson — fundador da National Allied Publications, empresa que, por meio de sucessivas transformações societárias ao longo dos anos seguintes, viria a dar origem à DC Comics —, tampouco sabia o quanto seu papel no dia a dia daquela história acabaria ofuscado pelo que viria depois. More Fun Comics #11 não é lembrada por grandes reviravoltas ou vendas espetaculares — é lembrada porque, entre a continuação de um lobisomem e a estreia de um carro de polícia com rádio, batia, silenciosa, a semente de tudo o que a indústria dos quadrinhos se tornaria depois.

ÂMAGO: JORNADA HERÓICA - EP. 22: POPULAR COMICS 5A capa de Pop**ar Comics número 5, de junho de 1936, já deixa evidente ...
28/08/2026

ÂMAGO: JORNADA HERÓICA - EP. 22: POPULAR COMICS 5

A capa de Pop**ar Comics número 5, de junho de 1936, já deixa evidente a estratégia de venda que a revista adotava na banca. No canto superior esquerdo, o selo preto com JUNE No.5 e 10¢ informa mês e preço, dez centavos, preço de capa documentado para a edição. Acima, em letras pequenas, OVER 100 COMICS IN FULL COLOR promete o que ainda era novidade, cor em revista mensal. O título POPULAR COMICS, em vermelho com contorno preto, ocupa quase um terço da altura, desenhado para ser lido de longe. O centro não traz uma cena única, mas círculos coloridos com cabeças conversando, cada uma em fundo diferente, roxo, azul, verde, vermelho, com balõezinhos mínimos. Nesse mosaico temos Dick Tracy, Don Winslow, Little Orphan Annie, Reg'lar Fellers, Skippy e Smitty, o que já explica a escolha da capa como vitrine. Embaixo, a faixa preta com America's Favorite Funnies e a lista corrida de nomes, Believe It Or Not, Beck's Cartoons, Ben Webster's Page, Bertie, Bronc Peeler, Dick Tracy, Don Winslow, Gasoline Alley, Ginger, Harold Teen, Little Joe, Major Strange, Moon Mullins, Orphan Annie, Reg'lar Fellers, Skippy, Smitty, Smokey, Terry, The Gumps, Tom Mix, Winnie Winkle, Stamp and Puzzle Pages, Magic, And Others, funciona como cardápio e como argumento de venda, o And Others deixando espaço para o excesso.

Pop**ar Comics era em 1936 uma experiência ainda no primeiro ano da Dell no formato que hoje chamamos de comic book, editada por M. C. Gaines e Sheldon Mayer, com Gaines fornecendo material de tiras de jornal e Mayer trabalhando na adaptação e reorganização dessas tiras para o formato. O registro de copyright aponta venda a partir de 1º de maio de 1936 para capa de junho, e a contagem de páginasera de 68 páginas. O que importa é a lógica de m***agem, a revista reúne material de sindicatos diferentes, Chicago Tribune, King Features, Bell Syndicate, Famous Features, além de outras procedências, lado a lado, amplitude que é característica dessa fase inicial do título. E as datas originais não são uniformes, há tiras de 24 de dezembro de 1933, como Skippy e Always Belittlin', há tiras de domingos de junho e julho de 1935, como Dick Tracy, Annie e Terry, e há material de setembro e outubro de 1935, como Don Winslow. Essa mistura pode parecer descuidada à primeira vista, mas é também um retrato de como se fazia revista naquele momento, reunindo material já publicado em jornais e rem***ando em blocos de tamanhos variados. O contexto geral da indústria, bem descrito por historiadores como Bradford Wright, é que republicar era muito mais barato e seguro do que pagar arte nova, o que supõe-se que seja aqui o caso.

Dick Tracy ocupa quatro páginas e Little Orphan Annie pouco mais de três, e as duas vêm exatamente dos mesmos quatro domingos, 30 de junho e 7, 14 e 21 de julho de 1935. Em Tracy a legenda de abertura que o leitor encontra é Following the death of Mark Masters, the gambling bank teller, a renewed war on the underworld (Após a morte de Mark Masters, o caixa de banco viciado em jogos, uma guerra é renovada contra o submundo), com Chester Gould creditado em roteiro e arte. Aparecem Bookie Joe, Tess Trueheart e Junior Tracy, e a sequência mostra Tracy ainda desdobrando a morte do caixa envolvido com jogo, com tiroteio e perseguição em páginas dominicais grandes reduzidas para o formato revista, mantendo o traço e o contraste da página original. Little Orphan Annie, com Harold Gray em roteiro e arte, traz Annie, Daddy Warbucks, Eli Eon e Sandy, o cachorro. A história gira em torno de uma reunião e de uma tentativa de manip**ação por Eli Eon, típica da fase em que Gray usava a tira para discutir poder e dinheiro.

Terry and the Pirates tem três páginas, com os domingos de 9, 16 e 23 de junho de 1935, roteiro e arte de Milton Caniff e letras de Frank Engli. Terry Lee e Pat Ryan estão prisioneiros da Dragon Lady, personagem que Caniff estava construindo como figura de autoridade e mistério no Oriente imaginado dos jornais, e a tensão vem mais do diálogo e do jogo de olhares do que de luta. Na mesma linha de aventura ligada ao mundo real vem Don Winslow, com 2 meia-páginas, reimprimindo 22 e 29 de setembro e 6 de outubro de 1935, com roteiro de Frank V. Martinek e arte de Leon A. Beroth. Martinek tinha passagem pela inteligência naval americana, e fontes institucionais da Marinha, como o Naval Institute, documentam que Don Winslow foi criado com preocupação explícita de imagem e recrutamento, buscando associar o serviço naval a aventura e competência. A Dell mantinha junto Bos'n Hal Sea Scout, versão juvenil da mesma ideia, na mesma edição.

Tom Mix aparece com duas páginas sob o título The Fighting Cowboy, e aqui há uma curiosidade editorial. O material é derivado do Big Little Book #1144, Tom Mix in the Fighting Cowboy, de 1935, escrito por Leon Morgan e ilustrado por Hal Arbo, e acrescenta nota baseada em Michael Barrier de que Ga***rd Du Bois provavelmente adaptou a história para quadrinhos, o que teria sido um dos primeiros trabalhos dele no formato. Ou seja, é a adaptação de Big Little Book de Tom Mix que aparece na edição, provavelmente realizada por Ga***rd Du Bois, então no começo de sua carreira em quadrinhos, com arte de Arbo. No mesmo bloco de fronteira vêm Bronc Peeler e On the Range, ambas de Fred Harman, com Bronc Peeler and Coyote Pete no logo, além de White Boy in Skull Valley, de Garrett Price, e Little Joe, de Ed Leffingwell. São tiras que hoje soam datadas no vocabulário, mas que em 1936 ainda vendiam a ideia de fronteira estilo faroeste.

O miolo de humor doméstico mostra por que a revista se chamava Pop**ar. Moon Mullins, de Frank Willard, sempre com o protagonista tentando escapar de serviço e Kayo apanhando. The Gumps, de Sidney Smith, tem duas páginas, onde Andy Gump está ansioso por notícias de seu filho perdido no Polo Norte. Gasoline Alley e Harold Teen aparecem ao lado de Winnie Winkle, e ainda Smitty e Smokey Stover. São tiras que não foram escolhidas por serem atemporais, a revista combinava material obtido de diferentes sindicatos e fontes editoriais, distribuindo-o em blocos de tamanhos variados para preencher suas páginas, um trabalho de recorte e reorganização que caracterizava a produção dos primeiros comic books da Dell e no qual Mayer estava diretamente envolvido.

Para os leitores menores, a edição reserva meias páginas que explicam muito da longevidade de Pop**ar Comics. Skippy e Always Belittlin', ambas de Percy Crosby, reimprimem material de 24 de dezembro de 1933, com Skippy perguntando "Quando cães, gatos, canários, girafas, zebras, macacos, leões e tigres morrem, eles vão para o céu?" e Belittlin' passando o dia todo tentando pegar caranguejos e f**ando chateado por ter conseguido apenas lagostas, e também material de 10 de dezembro de 1933, onde descobrem um jeito peculiar de ganhar dinheiro fácil (basta enfrentar o desafio de um lutador de boxe), além de outras tiras de 7 e 14 de janeiro de 1934. Skippy foi publicada de 1923 a 1945, e o que a #5 preserva é justamente a fase filosóf**a da tira. Reg'lar Fellers e Daisybelle, de Gene Byrnes, trazem gags de ping-pong e de cartões de aniversário. Tippie, creditada a Edwina Dumm, em Let's Take a Walk, chama atenção porque Dumm era uma das poucas mulheres com tira nacionalmente distribuída nos anos trinta, o que é um dado de contexto da indústria. Ripley's Believe It or Not aparece em três páginas, com casos como Charley Tanner e a árvore humana, sempre com crédito de Robert Ripley. Fecham a revista Ben Webster's Page, Nugent's Originals com passatempos, e The Pop**ar Stamp Club, texto de Montgomery Mulford sobre selos, além de Real Magic. Tudo isso mostra a natureza híbrida do comic book de 1936, não só quadrinhos, mas passatempos, textos e curiosidades.

Fechar Pop**ar Comics número 5 é entender por que ela importa sem precisar inventar mito. Ela não precisa de uma primeira aparição ou de um manifesto editorial para ser importante, tem algo mais raro, ela guarda exatamente como se m***ava uma revista num momento em que o formato dos comic books ainda estava se consolidando. A colorização sem crédito registrado, as pequenas frações de página, às vezes ocupadas por material de anos diferentes, e a adaptação de Big Little Book de Tom Mix, provavelmente realizada por Ga***rd Du Bois, são marcas de uma m***agem editorial que hoje parece rudimentar, mas que ajuda a explicar como o comic book estava se formando. Tudo isso foi reunido para que, por dez centavos, um leitor pudesse levar para casa a promessa de mais de cem quadrinhos em cores. Chester Gould, Milton Caniff, Harold Gray, Frank Willard, Percy Crosby, todos passaram por aqui, reunidos no mesmo objeto editorial e preservados para um futuro que eles não poderiam imaginar. E quando a última página de Smokey Stover diz "Que dia espetacular, Smokey! Vamos dar uma volta.", f**a a impressão discreta de que alguém em 1936 guardou esse exemplar não porque era raro, mas porque por uma tarde ele fez a casa parecer um pouco menos apertada, e isso, para quem coleciona e estuda quadrinhos, ainda comove mais do que qualquer valor de catálogo.

ÂMAGO: JORNADA HERÓICA - EP. 21: NEW COMICS 5A capa de New Comics  #5 já entrega, sem querer, o espírito bagunçado e ain...
18/08/2026

ÂMAGO: JORNADA HERÓICA - EP. 21: NEW COMICS 5

A capa de New Comics #5 já entrega, sem querer, o espírito bagunçado e ainda meio ingênuo daquela fase pré-Era de Ouro: nada de herói em ação, nada de vilão ameaçador — só um rapaz de terno vermelho sorrindo bobamente entre corações e flores, distraído, enquanto um touro furioso se prepara para atacá-lo por trás. É gag pura, no estilo das tiras de jornal humorísticas que ainda dominavam o imaginário dos editores da época, quando comic book ainda soava mais como "coletânea de tirinhas engraçadas" do que como aventura. A capa é de Whitney Ellsworth. A revista custava 10 centavos, saiu às bancas em 1º de maio de 1936 com data de capa de junho, e trazia no rodapé a promessa "ALL ORIGINAL!... ALL NEW! MYSTERY!.. THRILLS!.. ADVENTURE!" — um selo de orgulho para uma editora, então chamada National Allied Newspaper Syndicate, Inc., que apostava em conteúdo original numa época em que boa parte do mercado ainda se baseava em reimpressão de tiras de jornal.

Entrando na revista, o miolo western concentra boa parte da produção mais "de fábrica" daquele momento. Em "Captain Jim of the Texas Rangers", Jim e Bob perseguem a quadrilha de Mr. Lane, que sequestrou duas crianças; os bandidos se separam para despistar, deixam o aviso "LAY OFF OUR TRAIL" numa árvore e armam uma armadilha de tronco — e é justamente nela que Bob cai no fechamento do episódio, sem resolução dentro das duas páginas, um gancho clássico para a continuação. Escrita e desenhada por Homer Fleming, essa mesma premissa circulava, curiosamente, ao mesmo tempo em outra editora concorrente: a Centaur Publications publicava uma versão quase gêmea, sob o título "Captain Bill of the Rangers", escrita por W.M. Allison — duas versões muito próximas do mesmo conceito rodando ao mesmo tempo em editoras rivais. Em "Sagebrush 'n' Cactus", os dois protagonistas escondem o ouro e m***am um teatro: Cactus se disfarça do garimpeiro morto Pickax para forçar o assassino Knife Ambush a se entregar no Adobe Opera House — teatro esse que f**a apenas armado, sem desfecho, seguindo para o capítulo seguinte. "Slim and Tex" resolvia sua gag dentro da própria edição: uma aposta de tiro ao alvo no rancho Triple X vira trapaça quando Miss Helen revela que Slim comprara balas de festim para Tex errar. "Rattlesnake Pete" também se fecha nas duas páginas — o próprio Pete passa a história inteira se jogando no chão, achando que uns sons de "Z-Z-Z" são tiros, até se esconder dentro de um cocho com a placa "HOSSES ONLY" e descobrir, pela boca de um menino, que eram apenas mutucas atrás de cavalo. "Rattlesnake Pete" e "Rock-Age Roy" estreavam nesta edição, ambas assinadas por Gordon G. Rogers, mais conhecido como Boody Rogers, que usava o pseudônimo "R. Donrog" (seu sobrenome invertido) na primeira e simplesmente "Rogers" na segunda. "It's a Dern Lie", coluna de causos exagerados de leitores ilustrada por Bill Patrick, trazia nesta edição o relato de Ralph Jeske, de Milwaukee, contando que abateu três índios com um único tiro, fez seu cavalo parar em pleno ar na beira de um penhasco e planou de volta ao chão.

No bloco marítimo, "Captain Quick" segue em aberto: o corsário Kendal Quick captura o galeão de Rodriguez e encontra a bordo Marjorie, seu antigo amor, agora noiva do espanhol, além de prender no porão Don Pedro Vicente de Gonzalez Cordoza — que passa a noite tentando se soltar das correntes, ainda sem sucesso ao fim do episódio, num capítulo em aberto de uma serialização longa. "Castaway Island" termina em pleno salto de Dougal do penhasco sobre o vilão de camisa vermelha, depois de ele e Larry ouvirem os gritos de Sally e deduzirem que Blackface a levara para uma caverna no alto da ilha — um gancho de ação clássico cujo desfecho f**a para depois. "17-20 ON THE BLACK" também não se resolve aqui: Frog Morton se livra do capitão e tenta afogar Jim Gale, mas Jim sobrevive e volta disfarçado de imediato com o plano de retomar o navio, embora essa retomada em si ainda não aconteça dentro da edição. "Ray and Gail" deixa a trama em suspense quando a tia Millie rouba o mapa do tesouro da cabine do capitão Bill, cai no mar e vira isca de tubarão enquanto Joe Macula tenta salvá-la — desfecho do resgate igualmente pendente. "Capt. Spiniker", de Tom Cooper, era a exceção resolvida desse bloco: o capitão de perna de pau manda o Old Bean limpar o convés, enfia a perna num barril de cidra, f**a preso e termina encharcado quando o barril estoura — gag fechada em si mesma.

O destaque real, porém, é a estreia de "Steve Conrad on Dolorosa Isle": Steve secretamente m***a uma pequena trip**ação para explorar a ilha desabitada, a bordo do Cyanogen Cruiser — capaz de percorrer 1000 milhas em 4 horas —, com o mapa da ilha e a clandestina Myra Rutherford, filha do financiador, surgindo a 300 milhas da costa. É literalmente a primeira aparição do personagem, criado, escrito e desenhado inteiramente por Creig Flessel. Vale o contexto: Flessel havia entrado nos quadrinhos respondendo a um anúncio classif**ado que o próprio Malcolm Wheeler-Nicholson publicara no New York Times, e em entrevista concedida décadas depois contou que, naquele início, os editores estavam tão desesperados por material que a rotina virava quase uma piada — pediam "duas páginas" e ele tinha que inventar um roteiro inteiro na hora, sem nenhuma experiência prévia como roteirista, aprendendo a escrever no próprio trabalho.

A trinca de aventura exótica — selva, neve e futuro — também guarda sua cota de curiosidade. "Sandor and the Lost Civilization" abre seu longo arco com o protagonista, criado por cães selvagens na Índia, matando um tigre na faca para salvar seu próprio cão e sendo imediatamente cercado pelos lanceiros de Rajah Marajah, m***ado num elefante — gancho evidente para os capítulos seguintes. "Maginnis of the Mounties" segue sua trama em aberto: o Mountie Dan Maginnis, disfarçado de caçador na neve, briga com ladrões de peles na cabana dos Dubois e vê o velho Dubois levar um tiro pelas costas. "The Vikings", de Anthony, era a exceção fechada: Ivar assume o clã após a morte do pai e vence Haal o Forte num duelo de espadas, poupando-o desarmado e ganhando sua lealdade — tudo resolvido dentro da própria edição. E "Stratosphere Special! 2036 A.D." trazia sua segunda e última parte dentro desta série, assinada por Serene Summerfield, já imaginando um turismo lunar com passageiros flutuando, aviso para usar moon-shoes e nativos azuis cabeçudos que levam todos para descer uma rampa infinita até o Noom-eht-n-nam, o Homem da Lua. Summerfield foi uma das primeiríssimas mulheres a desenhar quadrinhos nos Estados Unidos, e sua estreia nessa mesma série havia sido na edição anterior, a #4. A visão dela de viagem lunar é curiosamente antiquada até para 1936, mais próxima de uma fantasia de balão do século 19 do que da ficção científ**a pulp que já circulava na época. Pouquíssimo se sabe sobre sua trajetória nos quadrinhos além desse breve trabalho.

O humor cotidiano da revista tinha mais substância nos detalhes do que parece à primeira vista. Em "Sir Loin of Beef", Cowhide se gaba de ser o melhor arqueiro, e Hash amarra uma corda no alvo de palha para f**ar puxando escondido no mato, até ser descoberto e virar ele mesmo o alvo — gag fechada. "Ol' Oz Bopp" manda Oz buscar boilin' beef, e o vira-lata Bosko, que ele tenta enxotar o caminho inteiro, acaba levando a carne sozinho para casa e salvando-o da bronca da Maw. "Sam the Porter", que estreava nesta edição, é uma cascata de trocadilhos: Sam procura por um tal Mr. Rohr de Niagara Falls e só encontra gente de sobrenome parecido — Hurd, Hart, Dent, Burns —, até concluir que ele mesmo é o tal Mr. Burns de Hot Springs. "Goofo the Great" tenta impressionar a namorada Sis com flores que viram cenouras por sabotagem do irmãozinho dela. "Ol' Oz Bopp", "Sam the Porter" e "Goofo the Great" eram todas assinadas pelo mesmo pseudônimo, "Alger", do artista Russell Cole.

"Needle" entra na casa do Dr. Bob Lewis só para vender revista e sai examinado à força, martelado e prensado antes de conseguir falar. "Rock-Age Roy", de Boody Rogers, não alcança as costas do dinossauro Zip dormindo, chuta uma cabra montesa e usa a chifrada na bunda como catapulta para cair em cima do bicho — resolvida na própria página. "Bugville", de Dick Ryan, é uma página dupla lotada de detalhes ao estilo "Onde Está Wally", com a cidade-inseto m***ando um espetáculo com faquir e baile de mariposas, e entre as piadas visuais está uma referência direta à guerra ítalo-etíope, conflito real que dominava os jornais havia poucos meses — um raro momento em que o humor infantil da revista comentava, de raspão, a política internacional da época. "Andy Handy" é um loop visual infinito: o personagem esquece as galochas, se molha, volta, se equipa, faz sol, tira tudo e recomeça — terminando literalmente com a instrução "NOW START WITH PICTURE NUMBER 8", um gag estrutural quase experimental para os padrões de 1936. "Rusty" quer fazer boa ação regando a grama da Sra. Pinchpenny, dorme no sol com a mangueira na mão, sonha que salva uma donzela e acaba inundando a casa de verdade — descobrindo, na reviravolta cômica, que o "socorro estou me afogando" era do papagaio molhado dentro da gaiola. E "Laughing at Life!" fecha esse bloco doméstico com Bill Brown fugindo do telefonema da esposa sobre bridge — o mesmo bridge que era, à época, verdadeira febre de salão nos Estados Unidos dos anos 1930 —, tentando se impor, indo jogar à força e voltando de olho roxo.

Por fim, o bloco "educativo" e o suspense policial reforçavam a pretensão de respeitabilidade da editora. "King Arthur" adapta o Mabinogion com Geraint, de armadura enferrujada, quebrando a coroa do campeão Sparrow Hawk, que se revela Edern, filho de Nudd — episódio fechado em si mesmo, com uma ironia sutil: apesar do título, o próprio Rei Arthur não aparece nesse episódio específico, assinado por Rafael Astarita. "Pandora's Box / Myths of Gods and Men: Prometheus", desenhada por Henry Kiefer, conta em sequência a caixa que solta todos os males e só deixa a Esperança dentro, e Prometeu roubando fogo do sol e sendo acorrentado à rocha para o abutre — episódio igualmente fechado. Fora do conteúdo desta edição, vale o contexto geral de que Kiefer era um artista formado em Paris que migrara da ilustração de revistas pulp para os quadrinhos pouco antes, em 1935. "Famous Poems Illustrated", também de Kiefer, ilustra o poema de Longfellow sobre o Rei Roberto da Sicília: Roberto, orgulhoso ao ouvir o Magnif**at, diz que nada o tirará do trono, é transformado em bobo da corte por um Anjo que assume seu lugar, e tenta em vão provar sua identidade tanto ao Papa Urbano quanto ao Imperador — um duplo fracasso de reconhecimento que dá à história um tom quase kafkiano para os padrões de uma revista infantil.

"A Tale of Two Cities" segue sua adaptação serializada de Dickens, iniciada na edição anterior: a diligência para Dover em Shooter's Hill, Jerry Cruncher trazendo o recado "recalled to life" para Jarvis Lorry, Miss Manette descobrindo que o pai não morreu, e o povo faminto de Saint Antoine bebendo vinho do chão — sob os cuidados de Merna Gamble, reconhecida como a primeira mulher a escrever uma série serializada de peso dentro da futura National/DC, escrevendo e desenhando a história sozinha, algo raro até para os padrões masculinos da própria revista. "Federal Men", escrita por Jerry Siegel e desenhada por Joe Shuster, fecha a edição com seu clímax mais tenso: infiltrado de escafandro num submarino suicida que caça o iate do presidente, o agente Steve Carson rouba a arma do barbudo, atira na espoleta do próprio torpedo e parte o submarino ao meio, sendo resgatado no dia seguinte — episódio que, segundo registros da própria série, inaugura ali o padrão de submarinos e trip**ações sendo destruídos em nome do herói, e que também introduziu, nesta mesma edição, o "Junior Federal Men Club", um clubinho de fãs para engajar os leitores mais jovens. Fechando tudo, "Dale Daring - The Drew Mystery" mostra a protagonista amarrada e amordaçada no nº 30 da Rua A por Stitch e seu chefe, que, em vez de matá-la para não pegar a cadeira elétrica, forjam um incêndio jogando fósforo no tapete — até o Tenente Sparks chegar segundos atrasado e tirá-la do fogo por pouco.

Trinta e uma histórias, a maioria de duas páginas, espremidas em 84 páginas por dez centavos — uma amostra de uma indústria ainda improvisada, em que aventuras seriadas, gags, adaptações literárias e experimentos de ficção científ**a conviviam na mesma revista, muitas vezes produzidos por artistas que acumulavam funções.

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