22/04/2026
Sobrevivi a várias serpentes. Aprendi a reconhecer o som do perigo, o brilho frio do olhar que avisa antes do ataque, o veneno que se anuncia. Com o tempo, desenvolvi defesas: cautela, distância, desconfiança. As serpentes me ensinaram a lutar, a fugir, a resistir.
Mas do nada, foi uma borboleta que me matou.
Não veio com ameaça, nem com aviso. Veio leve, bonita, quase frágil, co conexão, semelhanças e encantamento. Não despertou meus instintos de defesa despertou constância e amor. E é aí que mora o perigo mais sutil: nem tudo que nos destrói chega com aparência de inimigo. Algumas coisas nos conquistam primeiro, quando vemos boa parte de nós no outro. Você já notou?!
A borboleta não tinha veneno, mas tinha beleza. Não tinha força, mas tinha delicadeza. E eu, acostumado a sobreviver ao óbvio, não soube lidar com o improvável. Baixei a guarda. Aproximei. Confiei.
Às vezes, não são as batalhas que nos quebram são as entregas, permitir que o outro vejo e sinta o melhor de nós, para depois colhermos dor.
Sobreviver ao que é claramente perigoso nos torna fortes, mas também pode nos dar a ilusão de que estamos preparados para tudo. E não estamos. Porque o que mais nos transforma ou nos destrói raramente se apresenta como ameaça. Às vezes, vem como encanto. Como leveza. Como algo que a gente quer segurar, mesmo sabendo, lá no fundo, que talvez não devesse.
E talvez essa seja a maior lição: nem toda morte é sobre fim. Algumas são sobre mudança. Sobre deixar para trás quem éramos antes daquela borboleta pousar. Daquele beijo. Ou algo mais profundo, aparentemente amoroso, acolhedor, como o berço da morte.
No fim, hoje, vejo, não foi exatamente o fim de mim foi o fim de uma versão que já não sabia mais viver sem se proteger de tudo… até do que parecia bonito demais para machucar.
Aquela pessoa preferida, que fez questão de matar o que havia sobrevivido de mim, após uma grande batalha.
Gratidão, a rejeição foi o pior e melhor castigo que a minha alma precisava para derrubar do tabuleiro da vida, as principais peças chaves que um dia acreditem serem únicas no meu coração.
Carta de despedida, das minhas pessoas favoritas, que planejaram o meu fim.
Nuria Leite