21/10/2024
Casarão 91
O frio cortava a quase madrugada de Garanhuns, quando Onírico, vagando sem
destino — autômato solitário, avenida acima — parou para descansar, ou para melhor beber toda
a magia do momento, num banco quadrado da bem cuidada praça, frente à prefeitura. Atrás de si,
um velho toco de árvore, há muito cortada, servia de vaso a relutantes flores, que teimavam em
arrancar veios de vida àquele ressecado tronco.
O olhar de Onírico deslizava, acompanhando um ou outro veículo que passava, ávido
por chegar em algum lugar algum. Ao sumir, na curva da igreja, subindo pela rua do Colégio
Santa Sofia, deixava de existir aos caeirianos olhos de nosso noctívago. Foi num relance que
estes se depositaram por inteiro no casarão 91. Hipnotizado, o restante do mundo colocou-se
entre parênteses e, naquele instante, apenas Onírico e o casarão existiam.
O azul esmaecido na arquitetura antiga, destacando as esfuziantes — por isso mesmo
estranhas — colunas prateadas da entrada, seguravam olhos e atenção de Onírico, que, aos
poucos, foram descobrindo detalhes curiosos — ainda que dotados de comedida simplicidade —
daquela interessante construção.
As formas quadradas, os relevos da fachada, as grades do pequeno muro que
resguardavam o singelo jardim, onde reinava, soberana, carregada e única roseira, a respingar de
vermelho vivo a entrada. Duas varandas davam para robustas portas de madeira, reforçadas com
portinholas protegidas por barras de ferro. A varanda superior apenas diferia da outra por uma
pequena grade de ferro retorcido em quadrículas envernizadas de branco, em toda a extensão
frontal. Nesta varanda, uma velha cadeira de balanço rangia aos leves impulsos gerados pela
inércia de um corpo, que se deixava abandonar naquele doce embalo. Ali estava uma mulher,
presumidos setenta anos, cabeça levemente inclinada para o lado — diria Onírico que pensava,
sonhava... talvez dormia.
E o grilo, único barulho que harmonizava com o ranger da cadeira, um renitente grilo
— como tão bem o sabem ser esses insistentes e melancólicos insetos — cantava sua monótona
cantiga, envolvendo, num único quadro, o casarão azul e sua solitária moradora, e Onírico,
sentado em frente ao portão do jardim, outro lado da rua.
A canção do grilo foi se fazendo cada vez mais forte, entranhando-se mais e mais na
alma daqueles dois desconhecidos personagens de tão estranha história que começava a se
delinear, e que, por alguma inexplicável razão, estavam frente a frente naquele momento. A noite
foi se fazendo pequena ante o barulho estridente daquele grilo, agora acompanhado por outros
tantos, a criarem uma enebriante sinfonia. Os agudos mais agudos arrancavam nesgas do céu e
pareciam rejuvenescer o velho prédio, envolto num surpreendente e denso nevoeiro, criando
propícios clima e cenário para uma louca corrida inversa do tempo.
Então, num clarão fantástico, foi-se dando a grande transmutação. O intenso cricrilar,
à medida que aumentava de volume, fazia surgir, ao redor de Onírico e em meio à neblina, uma
estranha realidade, também estranho cenário, desconhecido para ele.
Desaparecera-lhe o desenho moderno da praça e agora Onírico estava sentado sobre
uma pedra perfeitamente quadrada, embaixo de frondosa árvore, que lhe oferecia agradável
sombra, flores agarradas ao seu tronco, numa generosa permuta de seiva por beleza e perfume.
Pela avenida, dividida por um apenas canteiro, não mais veículos automotores, senão
charretes e cavalos que faziam retinir rodas e ferraduras no calçamento de pedras quadradas, uma
que outra retangular.
De familiar, apenas a igreja matriz, com seus detalhes algo árabes na fachada, e, no
alto, a imagem de Santo Antônio a dominar a paisagem. A sua frente, em cada um dos lados da
avenida, casarões reluzentes respiravam juventude.
Especialmente o 91 estava esfuziante. Recém-construído, achava-se invadido por
intenso gargalhar e gritos de crianças que não cansavam de correr, como para se certificar da
concreta existência da casa pintada de um azul forte, sustentada em suas varandas por brilhantes
colunas lisas e prateadas.
As janelas laterais, abertas, pareciam sorrir para o sol que, através delas, penetrava
fagueiro naquela residência, partilhando da alegria de seus donos; deixavam passar, através das
venezianas, a brisa que arejava de pureza aquele lar.
Extasiado diante de tamanha animação, Onírico estremeceu quando uma linda e
familiar garotinha, pouco mais de sete anos, chegou à varanda superior. Estava exausta e
vermelha da intensa correria. Desabou, feliz, sobre a cadeira de balanço, depositada no canto. Ao
impacto do infante corpo e sob a pressão da inércia, a cadeira começou a balançar, num rangido
alto de coisa nova — mas que lhe parecia também familiar.
Um grilo começou a entoar seu canto, a espaços de tempo, depois gradativamente
com mais freqüência e maior intensidade. A criança, ainda estampando um riso contente nos
lábios, reclinou levemente a cabeça para o lado e deixou-se levar pela harmonia dos rangidos da
cadeira, cada vez mais fracos, em dueto com o canto do grilo, cada vez mais forte, e agora
acompanhado por outros grilos e outros e outros... provocando um barulho ensurdecedor.
Tentando proteger os tímpanos de tão forte algazarra, Onírico experimentou
vertiginosa sensação de nova e mais rápida mudança. Singular névoa encobriu por completo o
sol que dominava até então, e o dia fez-se noite, em tão elevada velocidade, que parecia arrancar
penosos uivos daquele casarão. Onírico fechou com força os olhos e sentiu-se viajar a incrível
rapidez.
De repente, tudo parou. Como por encanto, dissipou-se a densa neblina de antes.
Nenhum barulho de grilo, som algum a denunciar qualquer presença de vida. Abrindo, a medo,
os olhos, Onírico encontrou-se no que julgaria outra praça, não fosse a velha igreja, centro da
avenida, a deteriorada imagem de Santo Antônio no alto. Sofisticados bancos quadrados, sob
uma fosforescente iluminação para ele desconhecida. Sentia falta de árvores, pelo menos
resquícios delas. Enormes edifícios encobriam a lua daquela madrugada fria. No térreo de um
deles, uma farmácia aberta era a única denúncia de vida.
Os olhos de Onírico concentraram-se no casarão 91. Ou no que lhe restou. Todo
descorado, parecia abandonado, na solidão medonha e enervante das casas vazias, o enferrujado
portão, meio inclinado por lhe faltar o apoio de uma das dobradiças, mostrava uma mirrada
roseira, seca e sem folhas.
Buscando a cadeira da varanda superior, Onírico encontrou-a também vazia, mas
ainda rangendo, ao leve balanço da brisa gélida da quase aurora.
Pouco ou nada entendendo do que se passara, Onírico levantou-se com lentidão,
lançou um último olhar às ruínas do casarão 91 e, caminhando seu passo incerto de alguém sem
destino, afastou-se, descendo a avenida, buscando com avidez pontos de referência que lhe
devolvessem a familiaridade da paisagem de há pouco.
Voltou-se de repente. Parecera ouvir um estridente choro de criança, ecoando no
velho casarão...
(TAVARES, Edson)