13/09/2026
O dono de sebo aprende cedo que o seu comércio, eventualmente, deixa de ser apenas um lugar onde se compram e vendem livros. Torna-se, antes de tudo, um ponto de encontro. As pessoas entram para procurar um autor e acabam contando da vida. Entram atrás de um volume esquecido e saem depois de uma hora de prosa. Algumas aparecem sem sequer saber o que procuram, movidas apenas pela deriva urbana. E, em meio a tudo isso, nunca falta um café ou um chimarrão para celebrar a ocasião.
Naquele tempo, meu sebo estava temporariamente instalado em Gravataí, embora eu tivesse uma vontade irreprimível de voltar para Curitiba. Talvez por essa saudade antecipada, as manhãs parecessem mais longas. O chimarrão corria quase diariamente e, entre um livro e outro, desfilavam os frequentadores habituais.
Um deles era o Juan, um uruguaio, simpático, sempre impecavelmente vestido, sempre exalando um perfume de qualidade, e que morava na cidade desde que eu era guri. Eu o conhecia, portanto, havia muitos anos. O que ele provavelmente ignorava era que, muito antes de se tornar meu companheiro de mate na idade adulta, ele havia sido o involuntário causador de uma das maiores humilhações da minha infância escolar.
Eu tinha dez anos quando a professora pediu um trabalho sobre imigrantes e, como havia um castelhano morando na mesma quadra de nossa casa, fui atrás dele. O sujeito costumava frequentar o Armazém Três Cantos, propriedade do seu Adelino Fonseca e sua esposa Ambrosina, conhecida por todos como “Dona Boneca”. Coisas do interior gaúcho. O armazém, além de abastecer os moradores com víveres, tinha uma parte separada que era o ponto de encontro dos homens afeitos a uns dedos de prosa regados a cerveja ou cachaça de Santo Antônio da Patrulha. Moradores do Centro, do Oriçó e os colonos do Rincão da Madalena se reuniam naquele local. Era ali que o Juan era assíduo em tomar uns tragos. Fiz, com toda a seriedade solene de um piá encarregado de uma missão acadêmica, o meu questionário. No fim, faltava apenas a rubrica do entrevistado. Juan assinou com a p***a de uma estrela de cinema.
Meus colegas olharam para aquela assinatura que tinha o formato de uma estrela rebuscada e decretaram, implacáveis, que a entrevista era falsa. Até hoje o eco daquele coro infantil ressoa nos meus ouvidos:
— Mentira!
Vergonha pura. Vergonha, vergonha, vergonha.
Vinte anos depois, o passado estava completamente sepultado, pelo menos na minha memória, e Juan reaparecia quase diariamente no sebo, sempre por volta das dez da manhã, às vezes com o Tov, seu cachorro São Bernardo. A esposa falecera havia alguns anos e não tiveram filhos; Juan era, por definição, um homem solitário. Tomava alguns mates comigo antes de seguir para o bar do Rubão, cinquenta metros adiante de onde um dia existira o Armazém Três Cantos, para tomar umas canhas.
Naquela manhã específica, como mandava o ritual, compartilhávamos a mesma cuia e falávamos sobre assuntos diversos.
Foi quando chegou o Francisco, que não se chamava Francisco, mas preservemos a rep**ação dos vivos, se é que ele ainda vive. Era uma figura que mantinha uma relação bastante distante com o banho e uma intimidade alarmante com o cigarro barato. O hálito fétido fazia par perfeito com a aura olfativa que o acompanhava. Eu já o conhecia de outras jornadas, pois tempos antes, ele me vendera a biblioteca do pai: um homem nascido na Boêmia e que lutara na Segunda Guerra ao lado da Alemanha nazista e que, por um desígnio insondável do destino, terminara seus dias em Gravataí, falecendo com mais de noventa anos.
Francisco sentou-se. Continuei servindo o mate, mas não bebi mais, dadas as condições do cidadão. Juan tomava. Francisco tomava. Eu abastecia a cuia, como bom anfitrião. Até que a conversa, por caminhos tortuosos, enveredou para o vasto e inglório campo da saúde bucal de Francisco. Foi então que ele decidiu ilustrar a charla de maneira particularmente prática: com a naturalidade de quem comenta a previsão do tempo ou o resultado de uma partida de futebol, tirou da boca um chumaço de algodão que servia de curativo caseiro ou não para um dente em avançado estado de putrefação, e passou a detalhar suas agruras com a piorreia e outras mazelas bucais.
Foi aí que Juan percebeu que eu havia parado quando Francisco chegou. Olhou para Francisco, com a boca aberta, num sinal inequívoco de espanto. Olhou para a cuia em suas mãos. Retornou o olhar para Francisco. Olhou para mim, ainda com a boca aberta e nem deu outro gole para roncar o mate. A expressão no rosto do castelhano era uma obra-prima do espanto. Era o horror em estado absoluto.
Devolveu a cuia, balançou a cabeça e sentenciou:
— Regis, no quiero más. Muchas gracias.
E abandonou o mate. Francisco, alheio ao drama civilizatório que acabara de instaurar, continuou na dele, sorvendo o amargo solito. Quando finalmente se levantou e foi embora, Juan virou-se para mim com os olhos arregalados e, num portunhol carregado de desespero, desabafou:
— Que mi**da, que mi**da, que mi**da! El tipo con piorreia y la p**a madre tomando mate conmigo! Aquele algodón sujo! Que mi**da!
— Por que tu achas que parei de matear quando ele chegou?
Não havia argumento antropológico, sociológico ou tradicionalista capaz de consolá-lo naquele instante. E eu, que até então acreditava firmemente que o chimarrão era uma das formas mais elevadas de comunhão humana, esvaziei a cuia, lavei cada milímetro do artefato e, com água fervente, escaldei a bomba com fervor religioso.
No dia seguinte, comprei outra cuia, outra bomba e, dessa vez, as reservei para uso estritamente pessoal, uma pequena heresia contra uma tradição que sempre respeitei. O mate existe justamente para passar de mão em mão, para derrubar cercas, para esticar a conversa.
Depois daquele dia, contudo, estabeleci uma cláusula pétrea de sobrevivência. Passei a compartilhar apenas a garrafa térmica. A cuia e a bomba novas ficaram comigo.
Desde então, quando alguém me diz, com ar solene, que o chimarrão é uma bebida feita para unir as pessoas, eu concordo, e concordo plenamente. Mas só se as pessoas tiverem condições mínimas de saúde bucal para participar da união. E, como não sei se têm, prefiro usar minha própria cuia e minha própria bomba.
O dono de sebo aprende cedo que o seu comércio, eventualmente, deixa de ser apenas um lugar onde se compram e vendem livros.