Sebo e Livraria Aldeia

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Livraria de livros usados e raros inaugurada em 2003 e atualmente em Curitiba, Paraná

Compramos e vendemos livros usados, antiguidades, brinquedos antigos, cédulas e moedas antigas, selos, mobiliário antigo, etc.

O dono de sebo aprende cedo que o seu comércio, eventualmente, deixa de ser apenas um lugar onde se compram e vendem liv...
13/09/2026

O dono de sebo aprende cedo que o seu comércio, eventualmente, deixa de ser apenas um lugar onde se compram e vendem livros. Torna-se, antes de tudo, um ponto de encontro. As pessoas entram para procurar um autor e acabam contando da vida. Entram atrás de um volume esquecido e saem depois de uma hora de prosa. Algumas aparecem sem sequer saber o que procuram, movidas apenas pela deriva urbana. E, em meio a tudo isso, nunca falta um café ou um chimarrão para celebrar a ocasião.
Naquele tempo, meu sebo estava temporariamente instalado em Gravataí, embora eu tivesse uma vontade irreprimível de voltar para Curitiba. Talvez por essa saudade antecipada, as manhãs parecessem mais longas. O chimarrão corria quase diariamente e, entre um livro e outro, desfilavam os frequentadores habituais.
Um deles era o Juan, um uruguaio, simpático, sempre impecavelmente vestido, sempre exalando um perfume de qualidade, e que morava na cidade desde que eu era guri. Eu o conhecia, portanto, havia muitos anos. O que ele provavelmente ignorava era que, muito antes de se tornar meu companheiro de mate na idade adulta, ele havia sido o involuntário causador de uma das maiores humilhações da minha infância escolar.
Eu tinha dez anos quando a professora pediu um trabalho sobre imigrantes e, como havia um castelhano morando na mesma quadra de nossa casa, fui atrás dele. O sujeito costumava frequentar o Armazém Três Cantos, propriedade do seu Adelino Fonseca e sua esposa Ambrosina, conhecida por todos como “Dona Boneca”. Coisas do interior gaúcho. O armazém, além de abastecer os moradores com víveres, tinha uma parte separada que era o ponto de encontro dos homens afeitos a uns dedos de prosa regados a cerveja ou cachaça de Santo Antônio da Patrulha. Moradores do Centro, do Oriçó e os colonos do Rincão da Madalena se reuniam naquele local. Era ali que o Juan era assíduo em tomar uns tragos. Fiz, com toda a seriedade solene de um piá encarregado de uma missão acadêmica, o meu questionário. No fim, faltava apenas a rubrica do entrevistado. Juan assinou com a p***a de uma estrela de cinema.
Meus colegas olharam para aquela assinatura que tinha o formato de uma estrela rebuscada e decretaram, implacáveis, que a entrevista era falsa. Até hoje o eco daquele coro infantil ressoa nos meus ouvidos:
— Mentira!
Vergonha pura. Vergonha, vergonha, vergonha.
Vinte anos depois, o passado estava completamente sepultado, pelo menos na minha memória, e Juan reaparecia quase diariamente no sebo, sempre por volta das dez da manhã, às vezes com o Tov, seu cachorro São Bernardo. A esposa falecera havia alguns anos e não tiveram filhos; Juan era, por definição, um homem solitário. Tomava alguns mates comigo antes de seguir para o bar do Rubão, cinquenta metros adiante de onde um dia existira o Armazém Três Cantos, para tomar umas canhas.
Naquela manhã específica, como mandava o ritual, compartilhávamos a mesma cuia e falávamos sobre assuntos diversos.
Foi quando chegou o Francisco, que não se chamava Francisco, mas preservemos a rep**ação dos vivos, se é que ele ainda vive. Era uma figura que mantinha uma relação bastante distante com o banho e uma intimidade alarmante com o cigarro barato. O hálito fétido fazia par perfeito com a aura olfativa que o acompanhava. Eu já o conhecia de outras jornadas, pois tempos antes, ele me vendera a biblioteca do pai: um homem nascido na Boêmia e que lutara na Segunda Guerra ao lado da Alemanha nazista e que, por um desígnio insondável do destino, terminara seus dias em Gravataí, falecendo com mais de noventa anos.
Francisco sentou-se. Continuei servindo o mate, mas não bebi mais, dadas as condições do cidadão. Juan tomava. Francisco tomava. Eu abastecia a cuia, como bom anfitrião. Até que a conversa, por caminhos tortuosos, enveredou para o vasto e inglório campo da saúde bucal de Francisco. Foi então que ele decidiu ilustrar a charla de maneira particularmente prática: com a naturalidade de quem comenta a previsão do tempo ou o resultado de uma partida de futebol, tirou da boca um chumaço de algodão que servia de curativo caseiro ou não para um dente em avançado estado de putrefação, e passou a detalhar suas agruras com a piorreia e outras mazelas bucais.
Foi aí que Juan percebeu que eu havia parado quando Francisco chegou. Olhou para Francisco, com a boca aberta, num sinal inequívoco de espanto. Olhou para a cuia em suas mãos. Retornou o olhar para Francisco. Olhou para mim, ainda com a boca aberta e nem deu outro gole para roncar o mate. A expressão no rosto do castelhano era uma obra-prima do espanto. Era o horror em estado absoluto.
Devolveu a cuia, balançou a cabeça e sentenciou:
— Regis, no quiero más. Muchas gracias.
E abandonou o mate. Francisco, alheio ao drama civilizatório que acabara de instaurar, continuou na dele, sorvendo o amargo solito. Quando finalmente se levantou e foi embora, Juan virou-se para mim com os olhos arregalados e, num portunhol carregado de desespero, desabafou:
— Que mi**da, que mi**da, que mi**da! El tipo con piorreia y la p**a madre tomando mate conmigo! Aquele algodón sujo! Que mi**da!
— Por que tu achas que parei de matear quando ele chegou?
Não havia argumento antropológico, sociológico ou tradicionalista capaz de consolá-lo naquele instante. E eu, que até então acreditava firmemente que o chimarrão era uma das formas mais elevadas de comunhão humana, esvaziei a cuia, lavei cada milímetro do artefato e, com água fervente, escaldei a bomba com fervor religioso.
No dia seguinte, comprei outra cuia, outra bomba e, dessa vez, as reservei para uso estritamente pessoal, uma pequena heresia contra uma tradição que sempre respeitei. O mate existe justamente para passar de mão em mão, para derrubar cercas, para esticar a conversa.
Depois daquele dia, contudo, estabeleci uma cláusula pétrea de sobrevivência. Passei a compartilhar apenas a garrafa térmica. A cuia e a bomba novas ficaram comigo.
Desde então, quando alguém me diz, com ar solene, que o chimarrão é uma bebida feita para unir as pessoas, eu concordo, e concordo plenamente. Mas só se as pessoas tiverem condições mínimas de saúde bucal para participar da união. E, como não sei se têm, prefiro usar minha própria cuia e minha própria bomba.

O dono de sebo aprende cedo que o seu comércio, eventualmente, deixa de ser apenas um lugar onde se compram e vendem livros.

10/08/2026
09/08/2026
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07/08/2026

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Sábado das 10 às 16 horas.

📍 Sebo e Livraria Aldeia
Rua Holanda, 219 – Bacacheri
Curitiba – PR

Esperamos sua visita!

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22/06/2026

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📍 Endereço: R Holanda 211 - Bacacheri, Curitiba - PR
📞 Telefone/WhatsApp: ( 41 ) 98500-0335

Esperamos sua visita! ✨📖💙

Hoje, Dalton Trevisan completaria 101 anos.Poucos escritores conseguiram fazer tanto com tão pouco.Enquanto outros preci...
15/06/2026

Hoje, Dalton Trevisan completaria 101 anos.
Poucos escritores conseguiram fazer tanto com tão pouco.

Enquanto outros precisavam de páginas e mais páginas para descrever um personagem, Dalton resolvia uma vida inteira em meia dúzia de linhas. Onde muitos procuravam grandes acontecimentos, ele encontrava literatura no balcão do bar, na pensão decadente, no casamento infeliz, na conversa interrompida.

Transformou Curitiba em território mítico sem recorrer a dragões, castelos ou profecias. Bastaram-lhe as ruas comuns, os amores tortos, os pequenos pecados e as misérias humanas que todos fingimos não ver.

Era avesso à fama, às entrevistas, às homenagens e às fotografias. Preferia desaparecer atrás da própria obra. Talvez por isso tenha se tornado maior que muitos autores que passaram a vida tentando aparecer.
Dalton entendia algo que poucos compreendem: escritores não sobrevivem em retratos. Sobrevivem em palavras.

E as dele continuam vivas.

Parabéns pelos 101 anos, Vampiro de Curitiba.
Alguns homens morrem. Outros permanecem assombrando bibliotecas.

📚 14 de junho de 1925 — 09 de dezembro de 2024

Endereço

Rua Holanda 219/Bacacheri/Curitiba
Curitiba, PR
82510190

Horário de Funcionamento

Segunda-feira 16:30 - 18:00
Terça-feira 13:30 - 18:00
Quarta-feira 13:30 - 18:00
Quinta-feira 13:30 - 18:00
Sexta-feira 13:30 - 18:00
Sábado 09:00 - 13:00
Domingo 09:00 - 13:00

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