12/06/2026
"Para muitos LGBTI+ o terreiro virou casa"
Pra grande parte da população LGBTQIAPN+, sobretudo tr****tis e pessoas trans, o terreiro foi e segue sendo território de possibilidade.
Ali o nome não precisa de laudo. A existência não pede autorização. Se a espiritualidade chama por um nome, a casa chama também.
É onde Dandara ouviu o nome pela primeira vez sem deboche. Onde Seu Robson virou ogã e o tambor respondeu ao peito dele. Onde a pombagira levanta a cabeça da moça e diz: você é uma senhora.
A fé de matriz africana aprendeu na pele o que é perseguição. Por isso entende o que é ter o corpo visto como caso de polícia. E cria regra própria. Aqui dentro, quem chega é filho. Tem banho de folhas, tem comida, tem função, tem família de axé.
Orixá transita. Oxumarê é cobra e arco. Logun é homem e mulher. Se o sagrado não cabe numa gaveta, por que a gente haveria de caber.
Não é perfeito. Existe preconceito também. Mas muitos pais e mães de santo já entenderam. Respeito vem antes do documento.
No país onde a expectativa de vida de uma tr****ti é 35 anos, no terreiro tem ebomi de 70. Porque vínculo é longevidade.
O terreiro não resolve todo o mundo. Mas sustenta uma parte dele. E nessa parte, muita gente encontrou pela primeira vez o direito simples de ser chamada pelo próprio nome.
E isso é casa.
Pajubá, também escrito bajubá, é um conjunto de palavras e expressões usado principalmente pela comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil, com origem nas religiões de matriz africana.
"De onde vem"
Nasceu dentro dos terreiros de candomblé e umbanda. Muitas palavras do pajubá vêm do iorubá e de outras línguas africanas usadas nos cultos. Como os terreiros sempre acolheram tr****tis, g**s e pessoas trans, o vocabulário acabou indo para a rua junto com quem frequentava as casas de axé.
"Pra que serve"
1. Comunicação: funciona como uma linguagem própria pra criar identificação e vínculo.
2. Proteção: durante muito tempo foi código pra falar em público sem ser entendido por quem era hostil. Era segurança.
3. Resistência cultural: mantém viva a herança africana e a história LGBTQIAPN+ brasileira.
"Exemplos comuns"
Aquendar: guardar, esconder
Bofe: homem
Equê: mentira, falsidade
Ebó: trabalho espiritual, e na rua virou confusão, problema
Picumã: cabelo
Uó: coisa ruim
Dar a Elza: roubar
Fazer a linha: fingir, disfarçar
"Importância hoje"
O pajubá saiu do gueto e foi pra música, TV, redes sociais. Artistas como Linn da Quebrada, Majur e Pabllo Vittar usam direto. Virou símbolo de pertencimento. Mas também é patrimônio linguístico. Mostra como a comunidade criou formas de existir quando o português oficial não dava conta.
Resumindo: pajubá é língua de afeto, de terreiro e de rua. É código, é memória e é política.