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03/01/2025

1001 MÚSICAS PARA OUVIR ANTES DE MORRER
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12/10/2024
Minha coluna desta semana, no Portal CorreioJoão TrindadeO POEMA “DE MAIAKÓVSKI” QUE NÃO É DE MAIAKÓVSKINos anos 70, era...
01/07/2024

Minha coluna desta semana, no Portal Correio
João Trindade
O POEMA “DE MAIAKÓVSKI” QUE NÃO É DE MAIAKÓVSKI
Nos anos 70, era muito comum se ver à venda poemas e frases em cartazes de tamanho grande, confeccionados com papel fotográfico. O mais destacado (e mais vendido) deles era um que continha um poema que compradores e vendedores alardeavam, orgulhosos, ser de Maiakóvski.
Quando cheguei a João Pessoa, com 14 anos, fiquei maravilhado com aqueles poemas e frases espalhados pelas calçadas (o que comprei, achei ali, na esquina do viaduto Damásio Franca).
É óbvio que, apesar de estudante pobre, comprei o grande e bonito cartaz com o poema
“de Maiakóvski”, em letras garrafais. Não tinha dinheiro para mandar confeccionar o
quadro, como a maioria fazia; mas valia a pena chegar no colégio e dizer que conhecia a
obra do famoso poeta russo.
Algum tempo depois, já fazendo resenhas literárias para o jornal Correio da Paraíba, tomei um susto: aquele poema não era de Maiakóvski, mas sim de Eduardo Alves da
Costa, cujo título é “No Caminho com Maiakóvski”. Ainda hoje, há pessoas que não
conhecem essa verdade; tanto que uma amiga, razoavelmente intelectualizada, postou,
recentemente, o poema, no Facebook, reafirmando o mesmo mito.
Vamos à passagem do poema que aparecia no cartaz e que, pelo estilo e pelo momento político por que passava o Brasil (ditadura e protestos), era recitado, entusiasticamente, em praça pública e manifestações, pelos “militantes” de “esquerda”:

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI
(Eduardo Alves da Costa)

Na primeira noite, eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim,
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Creio que o poeta carioca (de Niterói) vai morrer “engasgado” com essa
tremenda e injusta peça que a literatura lhe pregou.
(Texto publicado, originalmente, no Correio da Paraíba “on line”, em 2017- com adaptações).

Minha coluna desta semana, no Arena Correio:João TrindadeA bola perfumadaImaginem vocês uma criança que não pode jogar b...
15/06/2024

Minha coluna desta semana, no Arena Correio:
João Trindade
A bola perfumada
Imaginem vocês uma criança que não pode jogar bola, porque a mãe proíbe. Coitada de minha mãe; não a culpo por isso. Viúva muito jovem, apegava-se ao filho mais novo, um dos poucos que vivia com ela em casa, e usava da superproteção.
Pelo fato de minha mãe me proibir de jogar, era uma luta para praticar as peladas do Campo do Óleo. Era preciso esperar um descuido dela, para... Záz! Escapulir. O pior momento era o de chegar a casa; inventar mil desculpas; esconder o suor e o cabelo assanhado.
Para acabar de acertar, minha mãe odiava que eu jogasse de goleiro. Avisava: “No colégio, se o professor de Educação física inventar jogo, não jogue de goleiro”. “Mas por que, mamãe?” “Vem uma bola, bate no seu olho e você cega. Tudo, menos jogar de goleiro”.
O pior é que eu adorava jogar de goleiro. Adorava ser comparado a meus ídolos, Celimarcos e Menininho; ambos, goleiros do Esporte de Patos; o último, mais “parecido” comigo, porque, como eu, era baixinho.
- Já viu goleiro baixinho!?
- Já; e Menininho?
Um dia, dei uma lição em quem achava que goleiro baixinho não prestava. Numa disputa para ver quem seria o titular do time de handebol do Estadual de Patos, Bastinho, o técnico e introdutor desse esporte na cidade, me escolheu para titular. E isso após um grande embate como Jônathas (Biriba), que parecia com Zé Pereira, goleiro do Nacional. Após muitos treinos, Bastinho me escolheu, e eu dei o maior show, numa memorável tarde de torneio, na quadra do Estadual, quando Patos conheceu o handebol.
Meu sonho de handebol se acabou quando meu irmão Francisco dedurou que eu não ia ao Estadual cinco da manhã para fazer física, mas sim, para jogar handebol.
Era verdade. Enganei minha mãe, para poder treinar. Não poderia dizer que era treino de handebol, porque ela não me deixaria ir. Inventei a desculpa de Educação física e, dia sim, dia não, saía para treinar na “escolinha” de Bastinho.
Mas e a bola perfumada?
Explico-lhe, leitor apressado.
Toda a Peregrino de Araújo zombava porque eu não saía de casa e, principalmente, porque não jogava bola com meus colegas. O motivo o leitor já sabe. A coisa chegou a tal ponto, que inventaram uma rifa, comandada por meu tio Jones, em que, depois eu soube, forjaram uma sorte para mim e eu “tirei” a rifa.
Foi uma verdadeira festa, na Peregrino de Araújo.
- E aí, João! Ganhou a bola hein? Quando é que a vamos jogar com ela?
Era a pergunta que eu fazia à minha mãe. “Quando vou jogar com meus colegas?” “Quem mandou você ganhar bola em sorteio? Joga não. Principalmente, porque soube que você está jogando de goleiro”.
Toda a Peregrino de Araújo passou a zonar comigo. Um dos colegas espalhou a “notícia” de que eu, toda noite, colocava perfume na bola e dormia abraçado com ela; não jogava para não gastar. No dia seguinte, a pergunta era, onde quer que eu estivesse:
- E aí, João? Cadê a bola perfumada? Não adiantou de nada a gente fazer a rifa.
A minha raiva era dupla. Raiva da mutreta na rifa (sempre detestei engodo) e da atitude de minha mãe.
Desisti de brincar de bola. Principalmente porque, num dia em que jogava na Peregrino de Araújo, um colega acertou um “tuba” no meu olho direito. O leito da rua estava encharcado, e a mistura de lama, terra e água me fez passar três dias sem poder enxergar direito.

Minha coluna de 05/06/2024, no Portal Correio:João TrindadeNO CAMINHO, COM MÍLTON E AUGUSTONo dia 25 de novembro de 2023...
09/06/2024

Minha coluna de 05/06/2024, no Portal Correio:
João Trindade
NO CAMINHO, COM MÍLTON E AUGUSTO
No dia 25 de novembro de 2023 (um sábado), em meio a um sol causticante e satisfação incontida, participei, juntamente com outros amantes da literatura, ao lado do professor e Acadêmico Mílton Marques Jr., idealizador, de uma caminhada pelas ruas em que o poeta Augusto dos Anjos morou aqui em João Pessoa, então Parahyba; mais demorada e atenciosamente, pela rua Duque de Caxias, na época Rua Direita, onde o poeta morou, foi aluno e professor no Liceu Paraibano e casou-se com Esther Fialho, na antiga Capela de São Gonçalo, que se transformou na Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares, tendo sido demolida em 1929.
O cenário é desolador e revoltante!
Calçadas com obstáculos, carros de um lado e de outro – a rua é estreita, guardando, nesse particular, a arquitetura da época do poeta – camelôs, gente batendo na gente... Enfim, do poeta só os passos imaginários e poéticos na cabeça da gente e na oratória eficaz e perfeita de Mílton, que não à toa fez – e faz – no ofício a que devota total encantamento: o magistério. Mílton, além do grande conhecedor da cultura que é, do Acadêmico culto e erudito de cujo valor a Paraíba se orgulha, é – como ele mesmo disse no discurso de posse da Academia – sempre e orgulhosamente o professor.
Em verdade, a caminhada fez parte de um evento subdividido em dois: no sábado, o conhecimento das moradas de Augusto dos Anjos e, na segunda, à noite, o lançamento do livro “Ei-lo pulando de uma casa para outra nas ruas da Capital (Um Roteiro de Augusto dos Anjos, nas Ruas da Paraíba)” na Academia Paraibana de Letras, da qual o autor é membro.
O livro tem um estilo que traz a marca peculiar de Mílton: linguagem simples, acessível, límpida, didática. E a leitura é feita de imediato, simplesmente porque não conseguimos parar a cada capítulo terminado: um ímã inerente às boas obras que nos prendem, de forma tal que até mesmo a breve pausa para o cafezinho nos torna irrequietos para voltarmos a ela.
A Mílton não escapou, evidentemente, o descaso (a que já nos referimos) a que está relegada a, na época de Augusto, Rua Direita, e hoje Duque de Caxias:
“Degradação, lixo, entulhos, calçadas obstruídas, carros estacionados nos dois lados da rua, estreita para os tempos atuais; um tesouro arquitetônico abandonado, deixado ao sabor da voragem do tempo, revelando o desleixo, o descaso, nas ruínas que se multiplicam ao longo da via. Esta é a imagem real e triste do que hoje é a Rua Duque de Caxias, antiga Rua Direita, antiga Rua São Gonçalo, vista em rápido curso, do seu início ao seu término, tirando algumas fotos, com o intuito de tentar identificar os lugares onde teria morado o poeta Augusto dos Anjos, entre os anos de 1908 e 1910, quando viveu na Paraíba, nome da atual João Pessoa. Verifiquei tratar-se de uma tarefa que beira a impossibilidade: há casas sem número, a numeração não segue, necessariamente, uma sequência, e, com certeza, a lógica da numeração da época de Augusto dos Anjos não é a mesma da época atual. Vieram-me, de súbito, à mente os versos de ‘Os Doentes’:
‘Contra a arte, oh! Morte, em vão teu ódio exerces!
Mas, a meu ver, os sáxeos prédios tortos
Tinham aspectos de edifícios mortos,
Decompondo-se desde os alicerces!’”

Momento sublime da narrativa é este em que o autor transcreve um trecho do único poema em que Augusto se refere, explicitamente, a endereço na Capital, em que morou entre 1908 e 1910, antes de se transferir, definitivamente, para O Rio de Janeiro:
“Número centro e três. Rua Direita.
Eu tinha a sensação de quem se esfola
E inopinadamente o corpo atola
Numa poça de carne liquefeita”
(“Noite de um Visionário”).
Concordo com Hildeberto Barbosa Filho, quando disse, em poema dirigido a Mílton, que poeta não tem casa:
“(...) Prefiro pensar
Que a casa de Augusto
Nunca existiu.
(Ah! O abstrato das saudades!)
Nunca existiu a casa
De Augusto.
Nem na capital, nem no Rio,
Nem em Leopoldina.
Augusto não carece
De casa.
Os poetas não têm casa.”
(“A Casa de Augusto”).
Mas, saindo do mundo poético, é preciso valorizar e sempre relembrar os passos do homem – invólucro e condutor do poeta – e os lugares onde morou e por onde passou.
Momento de poesia
“Solitário
Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta...
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
– Velho caixão a carregar destroços –

Levando apenas na tumba carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!”
(Augusto dos Anjos).

Minha coluna de 01/06/2024, no Arena Correio:João TrindadeQuanto vale um cartão amarelo?Lucas Paquetá, que ganha R$ 48 m...
04/06/2024

Minha coluna de 01/06/2024, no Arena Correio:
João Trindade
Quanto vale um cartão amarelo?
Lucas Paquetá, que ganha R$ 48 milhões por ano no WestHam, patrocinado pela Betway, está na iminência de ser banido do futebol, uma vez que denunciado como alguém que, combinado com o também brasileiro Luiz Henrique, ex-Real Betis, hoje no Botafogo, levou cartão amarelo, num jogo da Premier Leage, para beneficiar amigos e parentes em Duque de Caxias (Baixada Fluminense). O que aconteceu é que os fiscalizadores desconfiaram das altas quantias efetivadas pelos apostadores.
Note-se a que nível de requinte chegou a corrupção do futebol, por meio dessas jogatinas, que, sem dúvida, chegaram ao extremo após o advento das bets. Antigamente (não muito antigamente), compravam-se árbitros de futebol, não devido a apostas, mas para beneficiar determinadas equipes. Ou compravam-se goleiros e zagueiros (os primeiros, para levarem “frango”; os segundos, para serem expulsos). Apostas do tipo: placar da partida, quem faz o primeiro gol, para qual time será o primeiro lateral, etc., eram feitas, exclusivamente por particulares. Já vi gente perder até casa e carro por causa de tais apostas; o que acontecia (e acontece), também, nas eleições.
Com a chegada das bets a coisa tomou ares de requinte. Até chegar ao ponto de, como no caso do qual Paquetá é acusado, o jogador provocar um cartão amarelo, aparentemente inofensivo. Como todos sabem, o cartão amarelo é uma punição mais branda e só provocará a expulsão (com o cartão vermelho), se o atleta recebê-lo três vezes.
As apostas, de qualquer tipo, são perniciosas: enriquecem as bancas e empobrecem os bolsos dos apostadores de boa fé. Não à toa, o Brasil já legalizou os bingos e depois voltou a proibir. Tais bingos foram alvos de duas CPIs, em 2004/2005. O atual governo, tentando minorar o problema, regulamentou o funcionamento das casas de aposta no país, obrigando-as a pagar impostos e implantando a fiscalização.
Mas, mesmo assim, as apostas se multiplicam, desenfreadamente, e as bets patrocinadoras da maioria dos clubes e da CBF, com grande visibilidade na mídia, produzem inúmeras ideias desse tipo de apostas e os consequentes crimes.
Cartões amarelos numa área não perigosa do campo não trazem risco ao resultado dos jogos, mas fazem mal da mesma forma, porque podem ser fruto do crime de corrupção no futebol. Lucas Paquetá tem até 3 de junho para apresentar a defesa final.
É de se perguntar:
No panorama do futebol atual, quanto vale um cartão amarelo?
“OLHO NO LANCE!...”
E perdemos Sílvio Luiz!... Para mim, o melhor e mais autêntico narrador esportivo que tivemos, nos últimos tempos.
Alegre, brincalhão, verdadeiro, impecável na narração dos lances, deixou bordões inesquecíveis, que certamente ficarão na memória dos desportistas brasileiros, como, por exemplo:
“Olho no lance!...”
“Pelo amor dos meus filhinhos.”
“Pelas barbas do profeta.”
Ficamos, então, sem Sílvio, uma rara sobrevivência de narrador que não torcia nas transmissões. Infelizmente, os “narradores” atuais não narram: “se esgoelam”, estridentemente, em favor do time pelo qual torcem.
É proibido cronista esportivo torcer? Claro que não! Desde que não seja na partida em que esteja narrando, comentando ou fazendo pista.

Minha coluna desta semana, no Portal Correio:João TrindadeO ACENTO GRAVE DA CRASE NÃO É ENFEITE!Ando deveras preocupado ...
25/05/2024

Minha coluna desta semana, no Portal Correio:
João Trindade
O ACENTO GRAVE DA CRASE NÃO É ENFEITE!
Ando deveras preocupado com o festival de “crases” que atualmente grassa nos jornais, portais, petições, despachos, sentenças judiciais; isso sem contar as redes sociais (essas, nem se devem levar em consideração!). Parece que o pessoal está pensando que o acento grave da crase é enfeite: é “crase” antes de masculino; antes de verbo; antes de nomes de localidade que não admitem o artigo A. Um horror!
Como já falei demais, em colunas anteriores, sobre a regra geral da crase (essa é que não estão mais usando mesmo!), vou me ater, nesta coluna, às regras específicas.
Regras específicas
1. Não ocorre crase:
a) Diante de palavras masculinas: Graciliano escrevia seus romances a lápis e depois os passava para a máquina de escrever.
Evidentemente, se antes do masculino vier em elipse (subentendida) uma palavra feminina, haverá crase; não devido à expressão masculina, mas à feminina. E isso é a regra; não exceção, conforme afirmam alguns.
Exemplo: Ele se veste à [moda de] Roberto Carlos.
b) Antes de verbo: O rapaz pôs-se, então, a afirmar coisas sem qualquer sentido.
c) Nas locuções com palavras repetidas: Estava frente a frente com o inimigo, mas não atirou.
d) Nas expressões adverbiais de instrumento: Ele foi ferido a bala.
e) Quando tivermos A + palavra no plural: Ele estava a léguas da cidade.
f) Antes de artigo indefinido: Dedicou-se a uma mulher sem escrúpulos.
d) Antes de pronomes, de um modo geral*. Alguns exemplos:
Ele se dedicava a alguma desconhecida.
Esta é a mulher a quem dei meu amor e a cuja dedicação visava.
Entreguei a ela a minha vida e ela, a dela a mim.
Dirijo-me a V.Exª para requerer licença-maternidade.
*Diante de pronomes possessivos, a crase é facultativa:
Dedico este poema à (ou a) minha mãe.
2. A crase é facultativa:
a) Diante de pronomes possessivos femininos (ver item anterior).
b) Depois da preposição “até”: Vou até à (ou a) cidadezinha referida.
3. Usa-se a crase:
a) Nas expressões adverbais femininas de tempo, modo e lugar:
Cheguei à tarde à fazenda (tempo + lugar, respectivamente).
Deixei tudo às claras para ele (modo).
b) Nas expressões prepositivas e conjuntivas:
Estava à espera de você (prepositiva).
À medida que sofria, adoecia (conjuntiva).
c) Diante dos pronomes senhora, senhorita, dona (como tratamento): Referia-me à senhora sua mãe, ainda há pouco.
4. Palavras casa, terra e distância
As palavras casa, terra e distância só aceitarão a crase se estiverem especificadas:
Cheguei a casa, logo cedo.
Chaguei à casa de minha mãe, logo cedo.
Enfim, os astronautas pisaram a terra e foram à terra em que nasceram, de imediato.
Ela estava a distância e não a vi.
Ela estava à distância de dez metros dele.
5. Indicação de horas
Admitirá crase quando houver especificação:
Cheguei às onze horas.
Cheguei à uma da manhã.
A uma hora morta, despedimo-nos.
6. Nomes de localidade
Para se usar a crase com nomes de localidade, deve-se lembrar da seguinte trovinha:
“Se quando eu venho, venho DA,
Quando vou, craseio o A.”
Exemplos:
Vou à Bahia.
Venho DA Bahia.
Vou a Piancó.
Venho de Piancó.
7. Ambiguidade sintática
Usa-se a crase (mesmo com verbo transitivo direto) para se desfazer ambiguidade sintática (a ambiguidade não é semântica: o sentido não se compromete, mas sintaticamente há confusão):
Observe as seguintes construções:
Venceu a doença o remédio.
Qual o vencedor? Há confusão entre o sujeito e o objeto.
Para se desfazer a ambiguidade sintática, coloca-se a crase:
Venceu à doença o remédio.
(Agora, sabe-se que o remédio foi o vencedor).
Atenção!
Deve-se ter muito cuidado com a seguinte estrutura:
Eu me referi à moça que chegou agora, e não à que saiu há pouco.
Note que a crase da segunda oração existe porque antes do pronome “que” está subentendida a palavra moça.

Minha coluna desta semana, no Portal Correio:João TrindadeALDO LOPES: DA ACADEMIA DO SONHO À ACADEMIA REALAnos 1970: 197...
14/05/2024

Minha coluna desta semana, no Portal Correio:
João Trindade
ALDO LOPES: DA ACADEMIA DO SONHO À ACADEMIA REAL
Anos 1970: 1974, 1975, por aí... Dois jovens idealistas (foi inevitável o chavão!), “sem parentes importantes e vindos do interior” gravitávamos em torno de Luiz Fernandes da Silva (este, mais velho do que nós), presidente da Academia Paraibana de Poesia, também idealista, sonhador e cujo talento maior era descobrir e incentivar jovens escritores. Era impressionante a delicadeza, o entusiasmo e o carinho com que nos tratava. Convidou-nos para ser membros da Academia, mas não chegamos a tomar posse.
Aldo não gosta de lembrar essa época; uma vez até me admoestou, porque eu falei. Inclusive, execrou, para sempre, e baniu de sua bibliografia a obra de estreia dele: “Metamorfoses em Prantos”: livro de poemas, publicado em 1978, e que tive a honra de prefaciar. Hoje, ele “quer ver o cão”, mas não quer ouvir falar dessa obra. Bobagens e radicalismos. Ser exigente na qualidade da primeira obra é algo que não se concebe, pois que inalcançável.
O destino e a obrigação de sobreviver na cidade grande nos afastou da Academia Paraibana de Poesia, com cujos rumos que tomou depois não concordamos e também foi motivo do afastamento.
Com que alegria vejo, agora, Aldo Lopes de Araújo, um dos maiores escritores paraibanos, já escritor maduro, eleito para a Academia Paraibana de Letras e cuja posse será nesta sexta-feira, 17/05/2024, às 18h30; aliás, data do aniversário dele (nasceu em 17 de maio de 1957, mesmo ano em que nasci).
Não é necessário dizer que estarei lá, com muita emoção e prazer, para abraçar o amigo de longas datas e hoje, sem dúvida, uma unanimidade na literatura paraibana.
Aldo, com o rigor que lhe é peculiar, escreveu grandes obras, das quais se podem destacar:
“Lavoura de Olhares” (1988)
Sobre este livro, que, ao contrário do que se divulga, não é o de estreia, pelos motivos que já expliquei anteriormente, escreveu o professor da UFCG, e membro da Academia Paraibana de Letras José Mário da Silva: “‘Lavoura de Olhares e outros contos’, ficção invadida pelo sopro transgressor da poesia, ancora, recorrentemente, no porto melancólico de uma memória fraturada pelo desconfortável sentimento da perda. Aqui, a morte, sutilmente espreitando a tudo e a todos pelas frestas da lembrança doída, é personagem central dos microenredos engendrados por Aldo Lopes. A consciência viva da inflexível passagem do tempo responde pela focalização ziguezagueada de quem, hoje adulto, tenta olhar o mundo com as retinas incontaminadas do menino que se foi um dia, com a libertária fantasia de uma infância irrecuperável”. “As dilaceradas fraturas da memória, contudo, não eclipsam uma tonalidade de ternura e compaixão que nutre o narrador em seus intimistas embates com o real. Enfim, nas mãos hábeis do consumado artesão da palavra, que é Aldo Lopes, o conto paraibano ratifica a sua condição de portador de maioridade estética”.

“Solidão Nunca Mais” (1996)
“Estátuas de Sal”, (2000)
“O dia dos Cachorros” (2005), vencedor do “Prêmio Câmara Cascudo”, principal prêmio literário do Rio Grande do Norte.
Esse livro tem como inspiração a “Revolta de Princesa”, acontecida em 1930, e também chamada “Guerra de Princesa”.
“Zé, A Velha e Outras Histórias” (2007)
“A Dançarina e o Coronel” (2014)

Breve apreciação
Na ficção de Aldo destacam-se importantes aspectos, não apenas do sertão paraibano, mas também da psicologia do homem sertanejo. Tudo isso com um rigor linguístico impecável. O texto de Aldo é conciso, econômico nas palavras (o que me lembra muito Graciliano Ramos, meu escritor preferido), corta os excessos, até atingir a precisão estilística, com muita habilidade, e na qual se harmonizam, perfeitamente, forma e conteúdo.
A poesia, porém, não abandonou Aldo, que, apesar da crueza da sua ficção, usa uma linguagem bastante poética: uma prova de grandeza!
*
Com a eleição de Aldo ganham a Academia e a literatura paraibana.

"Deus pôs almas nos cedros... no junquilho..."(Augusto dos Anjos)
27/04/2024

"Deus pôs almas nos cedros... no junquilho..."
(Augusto dos Anjos)

Minha coluna desta semana, no Portal Correio:João Trindade“A PAIXÃO SEGUNDO G.H.: FILME E LIVRO”Já nos cinemas, o filme ...
26/04/2024

Minha coluna desta semana, no Portal Correio:
João Trindade
“A PAIXÃO SEGUNDO G.H.: FILME E LIVRO”
Já nos cinemas, o filme “A paixão Segundo G.H.”, baseado no livro homônimo de Clarice Lispector, dirigido por Luiz Fernando Carvalho, tendo como atriz principal Maria Fernanda Cândido, que interpreta G.H., a personagem da narrativa, cujo foco é de primeira pessoa.
Aproveito a “deixa” para fazer algumas considerações sobre o livro e deixar o leitor mais a par da prosa de Clarice.
“A Paixão Segundo G.H.” é uma obra incomum e de difícil (ou talvez impossível) classificação. G.H. – a personagem - narradora – pratica um penoso e angustiante mergulho em si mesma, buscando uma identidade que justifique as razões de viver, de sentir e de amar.
Não há um enredo, uma história. O livro retrata um confronto entre a personagem -narradora (G.H.) e o seu “eu”, que age como interlocutor.
No apartamento dela, no último andar de um prédio de treze pavimentos, flagra-se a tomar café da manhã, automaticamente. Isso a assusta, porque desperta nela o sem-sentido do cotidiano alienado. Resolve, então, visitar o quarto da empregada, que se demitira.
Fazia seis meses que não entrava ali. Ao entrar, ela penetra em seu vazio interior. Aflita, procura alguma coisa para fazer, mas não acha nada. Eis que surge uma barata, saindo do armário. Nesse momento, emerge na narradora a consciência da solidão de ambas (ela e a barata). O nojo pelo inseto é inevitável e a desafia, assustadoramente. É preciso aproximar-se do inseto, tocá-lo e até provar-lhe o sabor. Para regressar ao seu estado primitivo, selvagem e mais feliz, G.H. deve passar pela experiência de experimentar o gosto do inseto. Por meio da “provação”, G.H. estaria fazendo uma reviravolta em seu mundo, condicionado, asséptico, alienado.
Segundo Mário Sérgio Conti, em artigo publicado na Folha de São Paulo, edição de 13 de abril deste ano, o diretor é fiel à prosa “turva e maçante” (concordo, plenamente com ele!) da escritora, não “barateia” a trama inventando falas ou personagens. E acentua: “O que o filme faz é acentuar cenas e temas para que se tornem os nervos da trama”.
Em relação à atuação da atriz Maria Fernanda Cândido, o fenomenal e erudito jornalista assinala:
“Para comparar a interpretação dela em ‘A paixão segundo G.H.’ seria preciso voltar à de Renée Falconette, em ‘A paixão de Joana D’arc’, obra-prima do cinema mudo (...).
Como a atriz francesa, Maria Fernanda Cândido está quase sempre em primeiro plano. Suas expressões, lágrimas e sorrisos dão vida a todas as nuances de G.H.”
Todos ao cinema!
Momento de Poesia
“Sentimento Secreto

O amor que te tenho a dar
É segredo para toda a gente.
Sabe dele o sol ardente
Que, igual vigia a observar,
Das alturas a tudo ver.
Mas não tem língua para falar,
Tampouco mão para escrever.
O amor que te tenho a dar
É segredo para toda a gente.
Sabe dele o vento presente
Que jaz e cabe em todo lugar
E que a tudo escuta e ver.
Mas não tem língua para falar,
Tampouco mão para escrever.

O amor que te tenho a dar
É segredo para toda a gente.
Sabe dele a lua reluzente
Que, no céu noturno a levitar,
Vela todo o meu dormecer.
Mas não tem língua para falar,
Tampouco mão para escrever.

O amor que te tenho a dar
É segredo para toda a gente.
Sabe dele o mar incidente
Que na praia vem me banhar
Para abrandar o meu arder.
Mas não tem língua para falar,
Tampouco mão para escrever.
O amor que te tenho a dar
É segredo para toda a gente.
Sabe dele a árvore vivente
Que sombreia o meu penar,
Inerte a encobrir o meu gemer.
Mas não tem língua para falar,
Tampouco mão para escrever.

O amor que te tenho a dar
É segredo para toda a gente.
Sabe dele a flor confidente
A quem me confesso a indagar:
Bem me quer mal me quer.
Mas não tem língua para falar,
Tampouco mão para escrever.

O amor que te tenho a dar
É segredo para toda a gente.
Sabe dele o rio corrente
Que desce da serra ao mar,
Lavando e levando o meu ser.
Mas não tem língua para falar,
Tampouco mão para escrever.

O amor que te tenho a dar
É segredo para toda a gente.
Sabe dele a ave eloquente
Que, com seu doce cantar,
Conforta o meu triste viver.
Mas não tem língua para falar,
Tampouco mão para escrever.
O amor que te tenho a dar
É segredo para toda a gente.
Sabe dele a estrela cadente
Que salta na noite a cintilar,
Esperançando o meu querer.
Mas não tem língua para falar,
Tampouco mão para escrever.

O amor que te tenho a dar
É segredo para toda a gente.
Sabe dele a rocha resistente
Que, indiferente ao meu estar,
Dá assento ao meu jazer.
Mas não tem língua para falar,
Tampouco mão para escrever.

O amor que te tenho a dar
É segredo para toda a gente.
Sabe dele a estrada conducente,
Por onde passo a suspirar
Pelo amor que almejo ter.
Mas não tem língua para falar,
Tampouco mão para escrever.

O amor que te tenho a dar
É segredo para toda a gente.
Sabe dele o coração ausente
Que jaz consigo em todo lugar,
Sabedor de todo o meu sofrer.
Mas não tem língua para falar,
Tampouco mão para escrever.”
(Jorge Gonçalves de Abrantes, poeta paraibano. In: “Poesia Desmedida”, editora Insular, 2021).

Endereço

Rua Cônego Luiz Gonzaga De Oliveira
João Pessoa, PB
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