19/08/2026
INDICAÇÃO DE QUARTA-FEIRA | ARIANA HARWICZ: ENTRE O LER E O VER
O que acontece com as imagens que criamos ao ler quando uma história passa da literatura para o cinema?
A indicação de hoje parte de dois livros da escritora argentina Ariana Harwicz: Morra, amor e Precoce, e se desdobra no filme Morra, Amor, adaptação do primeiro romance dirigida por Lynne Ramsay, com Jennifer Lawrence e Robert Pattinson.
Em Morra, amor, acompanhamos uma mulher, mãe de um bebê, vivendo em isolamento rural. Entre desejo e repulsa, amor e violência, sua experiência se move à beira de um colapso — da casa, do casamento, da maternidade e de si. Harwicz escreve uma maternidade em seu avesso: confinamento, raiva, desejo e ambivalência, longe de qualquer imagem idealizada.
Em Precoce, esse mesmo território se desloca para a relação entre mãe e filho adolescente, marcada por dependência, obsessão e abandono, em que os papéis se confundem continuamente. Juntos, os dois romances integram a chamada “trilogia da paixão”, com uma escrita física e vertiginosa em que maternidade, desejo e violência se atravessam sem fronteiras.
No cinema, Morra, Amor traduz esse universo em outra linguagem: o isolamento, o desconforto e a dimensão sombria da maternidade aparecem na construção das imagens, dos corpos e dos silêncios. É uma adaptação potente, especialmente para quem já leu o livro.
Porque adaptar é também criar outra obra, outra experiência, outras imagens.
E talvez esteja aí o ponto central desse encontro entre literatura e cinema: a imagem que o livro produz em nós coincide com a da tela?
Para quem leu primeiro: Grace era assim na sua imaginação? A casa, o corpo, a violência?
Para quem viu o filme antes: o que acontece quando o livro devolve essas imagens em palavras?
Você já leu Morra, amor? Já viu o filme?
As imagens se encontram ou se deslocam?
Ou, ainda: depois do cinema, é possível ler sem carregar suas imagens?
Hoje, o convite é atravessar as duas linguagens.
Ler. Ver. E perceber o intervalo entre uma imagem e outra.