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“Não recomendado para pessoas pudicas. Exige maturidade e sofisticação do espectador”, escreveu o New York Herald Tribun...
09/09/2026

“Não recomendado para pessoas pudicas. Exige maturidade e sofisticação do espectador”, escreveu o New York Herald Tribune em 1963.

🎬 O SILÊNCIO, de Ingmar Bergman.

Um hotel, duas irmãs, um menino, uma língua desconhecida e uma atmosfera de desejo, solidão e incomunicabilidade. Um dos Bergman mais perturbadores — e mais livres.

Cinema na Bamboletras. Venha para uma noite sem respostas simples.

~ O bom médico, de Damon GalgutDamon Galgut tem uma premiadíssima obra-prima em seu currículo: A promessa — livro venced...
06/09/2026

~ O bom médico, de Damon Galgut

Damon Galgut tem uma premiadíssima obra-prima em seu currículo: A promessa — livro vencedor do Booker Prize de 2021, entre outros vários prêmios. Por isso, fui procurar outros livros dele. Em O bom médico, ele conta a história do encontro entre dois médicos num hospital miserável do interior da África do Sul. Pouco depois do fim do apartheid ninguém sabe muito bem como será o novo país e Galgut bota sua lente no conflito entre duas pessoas: uma que desistiu de agir e outra que acredita, talvez ingenuamente, que ainda é possível mudar o mundo. Publicado em 2003 e finalista do Booker Prize daquele ano, o romance se passa no interior da África do Sul. O hospital, abandonado e decadente, torna-se uma espécie de miniatura da própria África do Sul: o regime mudou, mas o passado (e a pasmaceira) continua instalado nas paredes.

O narrador, Frank Eloff, é um médico que já perdeu a fé em quase tudo. Profissional competente, mas acomodado, carrega uma espécie de culpa histórica e pessoal: seu passado inclui uma hesitante experiência no Exército durante o apartheid. Ele não espera mais nada daquele lugar e, sobretudo, não acredita em grandes gestos. É justamente por isso que a chegada de Laurence Waters, jovem médico idealista, o incomoda tanto. Laurence acredita que a medicina pode transformar a realidade e se empenha em levar atendimento às comunidades pobres. O conflito entre os dois é rico porque Galgut não transforma Laurence no “bom médico” do título de maneira simples. Seu idealismo contém generosidade, mas também vaidade, imprudência e uma espécie de desejo de se sentir moralmente superior.

E aqui está, para mim, a grande inteligência do romance: Galgut não adere nem ao cinismo, nem ao idealismo. Frank sabe que o mundo é complicado e, por isso, não faz quase nada… Laurence acredita que sabe como o mundo deve ser e, justamente por isso, acaba produzindo coisas que carregarão consequências que não consegue controlar… O primeiro peca pela omissão; o segundo, pela ação irrefletida. Entre ambos f**a uma pergunta terrível: é melhor não fazer nada diante da injustiça ou agir, mesmo correndo o risco de fazer mal?

A África do Sul pós-apartheid é mais do que cenário. O hospital situa-se num antigo território criado para a população negra, e sua decadência material parece representar a dificuldade de simplesmente decretar que o passado acabou. A democracia chegou, mas as estruturas, os ressentimentos, a desigualdade e a violência continuam presentes. O apartheid está muitas vezes nas margens, nas relações entre as pessoas e na sensação de que todos carregam alguma coisa que prefeririam esquecer. Li algumas críticas que chamam a atenção precisamente para essa tensão entre passado e presente e para a persistência das divisões sociais e raciais.

Também é importante a forma como Galgut conta a história. Frank é um narrador pouco confiável, não necessariamente porque mente deliberadamente, mas porque enxerga o mundo a partir de suas próprias feridas, ressentimentos e limitações. Ele interpreta Laurence, sua amante Maria, os colegas e os acontecimentos — e a gente não acredita muito nele. Eu, pelo menos. Essa ambiguidade é uma das razões pelas quais o romance é tão interessante.

Há ainda uma questão que acho particularmente bonita: o que signif**a ser “bom”? Um bom médico é aquele que cura? Aquele que tenta ajudar? Aquele que respeita os limites de uma situação? Aquele que assume responsabilidades? Ou aquele que simplesmente não consegue assistir passivamente ao sofrimento? (Como comuna, sempre desconfiei de quem faz caridade, mas isso não vem ao caso). Galgut parece sugerir que a bondade, quando se transforma em certeza sobre o próprio papel no mundo, pode se tornar perigosa. (Nota: não gosto muito dos pró-ativos). E, ao mesmo tempo, o cinismo de Frank não é uma forma superior de lucidez: é também uma maneira de fugir.

Por isso, O Bom Médico é interessante não apenas pela questão do apartheid — que já renderia uma longa conversa —, mas porque permite discutir coisas muito próximas de nós: idealismo, culpa, responsabilidade, omissão, desejo de ser uma pessoa boa e, sobretudo, a dificuldade de distinguir uma boa intenção de uma boa ação. Sim, é na zona desconfortável entre esperança e fracasso que este romance realmente vive.

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04/09/2026

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É hoje !!!
02/09/2026

É hoje !!!

~ O Duelo, de Anton TchékhovNesta rara novela de Tchékhov — como todos sabem, ele se dedicava mais aos contos e às peças...
01/09/2026

~ O Duelo, de Anton Tchékhov

Nesta rara novela de Tchékhov — como todos sabem, ele se dedicava mais aos contos e às peças de teatro –, a gente f**a imaginando que outras novelas e romances maravilhosos ele também poderia ter escrito. Aqui, neste O Duelo, a ideologia encontra o abismo humano. O Duelo vai muito além do confronto físico que lhe dá título, transformando-se num palco para algumas das grandes questões existenciais que assombravam a intelligentsia russa do século XIX.

A história se passa numa pequena cidade litorânea do Cáucaso, um microcosmo, onde Tchékhov reúne figuras que representam polos opostos da existência. De um lado, Laiévski, um burocrata de 28 anos, é a personif**ação do “homem supérfluo” da literatura russa. Trata-se um sujeito que se mudou para o campo com sua amante, Nadiéjda, com sonhos de uma vida simples, mas que se perdeu no jogo, na bebida e na inércia. Vive pedindo dinheiro para todo mundo. De outro, o zoólogo Von Koren, um darwinista social convicto, representa a razão fria e o pragmatismo mais extremo, vendo em Laiévski um ser inferior. Acharia melhor se este fosse eliminado para o bem da evolução da espécie.

Na verdade, há vários “duelos”. Não há apenas o duelo final entre os dois homens, mas também o duelo silencioso entre os amantes que já não sabem se se amam, o duelo ideológico entre o niilismo boêmio e a rigidez científ**a, o duelo individual entre sonho e realidade, que dilacera o protagonista por dentro e o duelo da própria forma, onde Tchékhov equilibra a concisão do conto com a amplitude do romance .

Von Koren é brilhante e tem razão em muitos dos seus diagnósticos sobre a inépcia de Laiévski, mas seu antídoto para o mal é um autoritarismo que beira o totalitarismo, tratando pessoas como “insetos e nulidades” em nome da humanidade, da evolução e da razão. Já Laiévski é patético e autodestrutivo, mas sua falência é profundamente humana.

Ao contrário do que se poderia esperar, O Duelo não se resolve na violência do combate. O clímax se desvia por um acaso, por uma intervenção casual. A novela termina numa nota de ateísmo, sugerindo que a redenção e a justiça não vêm de grandes gestos ideológicos, mas sim de pequenas correções éticas na vida cotidiana.

Esta é uma obra de realismo psicológico, uma boa análise de humanos em crise e um comentário atemporal sobre o perigo de se transformar pessoas em meros objetos de uma teoria. Para fãs de Tolstói, Dostoiévski ou Turguêniev, O Duelo é uma leitura essencial que, como bem disse um amigo aqui da livraria, nos lembra que, na maioria das vezes, “os duelos fazem parte da maneira como enxergamos o mundo”.

Agende-se!Conça Dornelles inscreve sua voz numa linhagem de poetas que compreendem a literatura como exercício de sensib...
31/08/2026

Agende-se!

Conça Dornelles inscreve sua voz numa linhagem de poetas que compreendem a literatura como exercício de sensibilidade diante do mundo. Sua escrita recusa o ruído excessivo da contemporaneidade para reencontrar, no breve, no ínfimo e no silencioso, possibilidades de permanência. Há, em seus poemas, uma confiança rara na delicadeza — não como fragilidade, mas como força perceptiva e ética.

Ler Taiyō é caminhar por “uma estrada ladrilhada de poesia”, onde cada poema se oferece como pausa, respiração e claridade. Um livro que não exige pressa: pede presença. E talvez seja justamente essa sua maior realização estética e humana — lembrar ao leitor que ainda existem formas delicadas de habitar o mundo.

🎬 A pedido do público: SUNSET BOULEVARD — DE NOVO!Na próxima segunda-feira, às 19h30, a Bamboletras abre novamente as po...
31/08/2026

🎬 A pedido do público: SUNSET BOULEVARD — DE NOVO!

Na próxima segunda-feira, às 19h30, a Bamboletras abre novamente as portas para Hollywood em seu estado mais delirante.

Billy Wilder, Gloria Swanson, William Holden, uma mansão decadente e uma estrela que se recusa a aceitar que o tempo passou. Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard) é daqueles filmes que parecem envelhecer — mas, na verdade, f**am cada vez melhores.

Como vocês pediram, vamos assistir outra vez. Porque, em Hollywood, ninguém sabe sair de cena.

Venham. Norma Desmond estará esperando. 🎬

Hoje pela manhã, na Bamboletras, tivemos mais uma sessão do Grupo de Leituras do Projeto Flanar, do Cirandar. O livro da...
30/08/2026

Hoje pela manhã, na Bamboletras, tivemos mais uma sessão do Grupo de Leituras do Projeto Flanar, do Cirandar. O livro da vez foi Pequenas coisas como estas, de Claire Keegan, e tivemos vários daqueles momentos em que um grupo se reúne para conversar sobre literatura e, de repente, percebe que está conversando também sobre a vida.

Neste quinto encontro, o grupo, esmagadoramente feminino — como, aliás, costuma acontecer quando a função é cultural (sou homem hétero, mas o macharedo é muito b***o, credo) — encontrou rapidamente uma dinâmica fluida, inteligente, generosa e muito bem-humorada. É claro que a presença de Max, o gato da Bamboletras, contribuiu decisivamente para a qualidade intelectual da reunião. Max não leu Keegan, mas ouviu tudo com o senso crítico de quem já conhece o gênero humano.

Pequenas coisas como estas é um livro curto e de uma gravidade enorme. Fala de culpa, silêncio, conveniência, omissão e, finalmente, coragem. Quase parece um pequeno teste moral disfarçado de novela: terminamos a leitura e descobrimos que, de alguma maneira, também fomos interrogados.

E houve uma coisa especialmente bonita. Duas pessoas chegaram dizendo que não tinham gostado do livro. Saíram dizendo que talvez estivessem enganadas. Não porque alguém lhes tivesse imposto uma interpretação, mas porque ouviram outras leituras, reconsideraram as próprias certezas e deixaram o livro se mover dentro delas.

Bakhtin dizia, em essência, que as ideias vivem no diálogo. Hoje tivemos uma pequena demonstração disso: o livro era o mesmo, mas já não era o mesmo quando terminamos a conversa.

Talvez seja esta uma das maiores graças de um grupo de leitura: ninguém precisa vencer. Basta que todos saiam um pouco diferentes de como entraram.

E, no fim, até o Max parecia concordar, indo de um colo a outro.

Um apelo a quem pretende votar em Flávio, Caiado, Renan, Zema e na direita em geral.
29/08/2026

Um apelo a quem pretende votar em Flávio, Caiado, Renan, Zema e na direita em geral.

Ficou para o dia 2, às 18h30.
28/08/2026

Ficou para o dia 2, às 18h30.

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