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🇧🇷  Rael Lyra -  Relicário2012
15/06/2026

🇧🇷 Rael Lyra - Relicário2012

Abertura democrática de 1988 liberou a produção de quadrinhos por pequenos editoriais descentralizados, gerando uma expl...
15/06/2026

Abertura democrática de 1988 liberou a produção de quadrinhos por pequenos editoriais descentralizados, gerando uma explosão de vozes que usaram as HQs para traduzir, criticar e documentar tensões sociais e políticas do Brasil após o autoritarismo. Essa liberdade editorial foi crucial: os quadrinhos permitem o uso de linguagem híbrida — imagem e texto — alcançam amplos públicos, registram memórias coletivas, desconstrõem hegemonias narrativas e tornam visíveis injustiças que registros oficiais tendem a ocultar. Quando criadores exercem esse direito de expressão livremente, constrói‑se um espaço de debate crítico indispensável para compreender transições históricas, analisar a persistência de estruturas de poder e questionar práticas estatais de opressão e violência. Nunca a liberdade pareceu tão palpável aqui. quanto naqueles anos, por que foi como "reiniciar" o país.

Por outro lado, há um risco grave quando artistas e meios culturais adotam retóricas moralistas ou abraçam agendas que, sob aparência de restauração de uma certa ordem, decência ou “segurança”, relativizam direitos fundamentais. A normalização de discursos que demonizam minorias, relativizam liberdades civis ou justificam violência estatal ressoa perigosamente com velhas práticas autoritárias. Se o campo cultural se alinha a narrativas punitivistas e excludentes, ele pode conferir legitimidade simbólica a projetos políticos que visem restaurar hierarquias de casta e exclusão — uma fagulha que, em contextos fragilizados, pode alimentar um novo levante fascista. Assim, a autonomia artística não é neutra: sua captura por ideologias reacionárias corrói a função crítica da cultura e facilita retrocessos institucionais.

A defesa da liberdade de produção em quadrinhos deve, portanto, caminhar junto à defesa intransigente dos fundamentos democráticos e dos direitos humanos. A cultura crítica precisa ser instrumento de solidariedade e emancipação, não de exclusão. É preciso reafirmar valores universais de dignidade humana e pautar a criação cultural por um projeto político que promova um Estado verdadeiramente humanitário e progressista — capaz de promover desenvolvimento real, distribuição equitativa de riqueza e melhoria substantiva da qualidade de vida. Políticas públicas, mecanismos de fomento e redes de circulação cultural devem apoiar obras que ampliem a representação, denunciem exploração e fortaleçam a mobilidade social.

Uma sociedade saudável rejeita a exploração quase‑escravagista dos mais pobres e coloca a mobilidade social como prioridade: permitir que a prole dos trabalhadores ascenda e contribua para a formação da identidade nacional é essencial para coesão e legitimidade democrática. O combate às ideias excludentes — racismo, supremacismo e fascismo — deve ser absoluto; uma nação verdadeiramente próspera não pode coabitar com práticas que neguem direitos básicos a parcelas significativas da população.
Proteger e estimular a liberdade criativa nas histórias em quadrinhos é proteger o próprio espaço de crítica e memória que impede retrocessos autoritários. Ao mesmo tempo, artistas e instituições culturais têm responsabilidade ética: não legitimar agendas punitivistas ou excludentes. Só por meio de cultura crítica alinhada a políticas públicas progressistas e redistributivas construiremos uma sociedade mais justa, solidária e livre — onde a dignidade humana esteja no centro e onde a arte cumpra seu papel emancipador.

Não é obrigatório nos restringirmos à produção de HQs de viés crítico em detrimento do entretenimento; é preciso pensar o entretenimento como nossa ferramenta de diálogo, como artistas, com nossa época e sociedade, para exercer a crítica — de forma inteligente, sensível e estratégica — evitando converter essa crítica em suporte ou propaganda a serviço de grupos de poder.

Quando(anos de 1980) Júlio Emílio Braz trata os conflitos do sertão nordestino criados pela retenção coronelista das fontes de água potável em regiões áridas, e quando Watson Portela cria cangaceiros cibernéticos futuristas (Asa Branca, o cangaceiro cibernético) para protagonizar suas histórias, ambos estão lidando com épocas históricas das quais ficamos presos em looping temporal pelo modo como a sociedade vem sendo conduzida. Ainda hoje, os coronéis e os cangaceiros fugindo da volante continuam pautando o dia a dia da população em boa parte do país. Não são mais os bandos de Lampião e Corisco, ou Sinhô Pereira, mas estruturas criminosas que, como as antigas, são igualmente sanguinárias e existem apenas para pilhagem, extorsão e enriquecimento próprio; tanto quanto as volantes estão lá (e aqui) para defender os interesses das elites e matar, torturar, pilhar e extorquir os criminosos e seu protetorado, e também oprimir os cidadãos.

Este olhar difere da criação de super seres como os “capitães‑Brasil” — um movimento que tenta espelhar a propaganda de superioridade civilizatória e genética dos norte‑americanos ou europeus e se mistura com um ideario sobre a moralidade e hierarquia militar. Essa premissa vai gerar o personagem moderno mais famoso do Brasil: o Capitão Nascimento, do filme Tropa de Elite. Este personagem coloca um agente da lei, pago pelo estado para atuar como assassino serial (em serviço e fardado enquanto autoridade policial) e converte isso num suposto levante heróico... Você não entendeu errado.

Na prática, o Capitão Nascimento, como policial, deveria estar tirando das ruas — para além de delinquentes — gente criminosa extremamente perigosa como ele. A ideia de um justiceiro matando criminosos enquanto agente da lei tem forte ressonância na sociedade já massacrada pelo crime cotidiano e vitimada pelo Estado omisso. Mas, essa lógica, convertida em entretenimento, funciona como veneno: é propaganda de ódio e apologia ao crime (matar pessoas é crime hediondo e fazê‑lo enquanto agente da lei, na função de "defensor das leis e da ordem", deve ser considerado um agravante severo). O filme passa a ideia errada à população: a de que os oficiais da polícia podem se colocar acima do dever, negar o direito, atentando contra a vida dos cidadãos e contra o Estado de direito — a quem o está empregando e pelo qual jurou lealdade — apenas porque podem fazê‑lo (sem ser punidos). Esse abraço midiático à letalidade policial em favelas (um ranço fascista tupiniquim) garante que eles matem 400 crianças e adolescentes nos morros em um único ano, em operações desastrosas, sem que isso ocasione demissões, prisões dos agentes, remodelagem das instituições ou indignação social nacional e internacional. Se os criminosos nos morros estão portando fuzis, e sabemos hoje que essas armas entram a partir de aliados de congressistas da extrema direita que discursam contra a criminalidade mas estão armando e enriquecendo esses criminosos. Os responsáveis pelo controle dos portos, aeroportos, fronteiras interestaduais, estradas e fluxo de aviação e hidrovias precisam apresentar seu plano de ação para conter essa baderna... Ou explica-la. Se nada tem sido feito em relação a tudo isso, devemos supor que governadores e prefeitos estão na folha de pagamento do crime, e que se utilizam do crime como suporte midiático e estratégico para fazer riqueza e política, do mesmo modo que os coronéis fazem com a seca nos Setões por todos estes séculos.

O ato de tirar a vida de outras pessoas pode causar graves consequências psicológicas, neurológicas e emocionais ao próprio executor: estresse pós‑traumático severo, paranoia e profunda degradação da saúde mental — conforme sua capacidade de empatia. A ausência de empatia, a frieza e a falta de remorso (traços que se refletem nas formas mais extremas da escala de avaliação da psicopatia) são consideradas qualidades desejáveis para o exercício da função; ainda assim, os agentes envolvidos nessas situações não recebem acompanhamento adequado para mensurar sua condição de atuação na sociedade. Em muitos casos, o comportamento letal de agentes de segurança não decorre de um transtorno neurológico ou genético individual, mas de uma socialização perversa dentro de corporações ou governos que desumanizam determinados grupos sociais, tratando‑os como “inimigos” a serem combatidos ou eliminados. Policiais envolvidos em ocorrências com mortes podem ser negativamente afetados e tornar‑se inapto ao exercício da função, ou passar a apresentar comportamento violento fora de serviço. Por mais absurdo que pareça, corporações não divulgam dados e avaliações sobre esse aspecto — não existe, no Brasil, uma base de dados unificada que consolide, anualmente e em âmbito nacional, o número exato de policiais afastados por crimes, agressões, homicídios fora de serviço ou violência contra familiares nos últimos trinta anos. Embora o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o Ministério dos Direitos Humanos monitorem anualmente as mortes violentas e a letalidade policial, o controle de desvios de conduta, processos administrativos e afastamentos é descentralizado. Podemos supor que isso funcione como método para ocultar crimes e o comportamento corrompido, inadequado e violento de oficiais submetidos a estresse contínuo. A Polícia Militar de São Paulo (PM‑SP) registrou volume recorde de 917 pedidos de exoneração voluntária em 2025; neste mesmo ano, a corporação contabilizou 223 agentes presos — um aumento de 35% em relação ao ano anterior. Produzir entretenimento que estimule, contextualize e comemore crimes e ações criminosas banalizando-as não nos ajuda em absolutamente nada, e ainda piora o quadro cotidiano a que estamos expostos de desmandos do estado.

Aqui a película serve para vender a ideia falsa de uma superioridade e disciplina militar em relação à população civil. Mas trata-se da representação do ideário de uma elite (militar) em grande parte cooptada pela propaganda fascista e inclinada aos interesses dos inimigos declarados da nação. Qual heroísmo nisso?

Acontece num contexto de quinhentos anos de exploração estrangeira e mais de duzentos anos de nossa população refém de um coronelismo implantado pela monarquia portuguesa, assegurado por golpes de estado sangrentos, orquestrados pela hierarquia militar- uma estrutura igualmente ra***ta que promoveu dezenas de massacres violentos contra insurreições populares.
As forças Armadas brasileiras, na opinião de muitos historiadores, desde a sua fundação, serviram a interesses que perpetuavam o racismo, atuando na manutenção da ordem escravista e, posteriormente, na exclusão política e social da população negra. O conceito de heroísmo é o de salvação dos mais frágeis e oprimidos, da busca por justiça. Não o oposto. Tanto que o sucesso de Tropa de Elite gerou um segundo filme, que busca culpabilizar e tornar vilões os políticos estaduais e aqueles nomeados por eles — *o que já foi um avanço na leitura da realidade nacional — mas que ainda não aponta para a lógica da política: esses representantes no congresso são "plantados" ali pelo "Lobby", dinheiro dos empresários do agronegócio, dos bancos, das indústrias e de investidores estrangeiros para defender seus interesses em oposição aos interesses da maioria do povo.

Portanto, se existe corrupção "espontânea" no sistema, ela começa nas elites financeiras — bancos, oligarquias do agronegócio, ruralistas, financeiras, donos de empreiteiras e mineradoras — os um por cento mais ricos do país. A lógica do discurso do personagem Capitão Nascimento reafirma preconceitos e estereótipos em favor do delírio midiático financiado por elites através dos meios de comunicação (que mantém poder por intermédio desta propaganda contínua) sobre uma prole bestializada que precisa ser morta e encarcerada paulatinamente, mesmo estando evidente (em todas as experiências no mundo todo) que algo assim não altera o cotidiano do crime. Como se todas as pessoas miseráveis e em estado de abandono político-estrutural fossem criminosos a serem contidos pelo medo de morte e não trabalhadores e estudantes tentando ascender na carreira, ou pagar as contas. A mídia e o entretenimento não deveria continuar a culpar os pobres pelos problemas causados pelos ricos.

Para elucidar: o pior inimigo do Superman é o bilionário Lex Luthor, não o engraxate que rouba carteiras. Isso vindo de criadores nascidos na meca do Capitalismo.

Se uma sociedade não consegue lidar com delinquentes e viciados, estando tomada por eles, é sinal claro de que as instituições que deveriam investigar, punir e conter esses crimes (combater sua origem no topo da pirâmide financeira) estão mentindo para a população, infiltradas e fazendo fortuna com o crime, atuando a seu serviço. É uma situação extremamente grave, pois se o plano de segurança pública permite a letalidade como método de atuação das forças policiais, assume-se a incompetência no município e no estado para erradicar ou conter os crimes. Os gestores depositam a responsabilidade pelos resultados de segurança pública nas costas das polícias, mas esta é apenas um dos instrumentos do estado. Pior: nunca estes gestores serão punidos por sua negligência, incompetência ou conivência com o crime! Isso criou uma criminalidade infiltrada em diversas camadas sociais, muito resistente, e que aprendeu a usar influência e fortuna para manter seu poder nas regiões em que atua. Nos países onde responsáveis por estas agências são penalizados pelos resultados ruins ou ficam expostos a prisão perpétua em casos de corrupção, de união com criminosos, os índices da segurança pública são o oposto. É uma endemia criada e alimentada pelas próprias instituições, inclusive pelo modo como usam o orçamento disponível ao setor. Devemos deduzir, diante disso, que o predomínio do crime aqui é estratégico e intencional. Funciona para manter poder e gerar riqueza, justificar matança sistemática.

Os criadores das histórias do Homem de Aço já perceberam, nas duas décadas anteriores, que os donos de empresas de seguro saúde que deixam seus clientes morrerem para lucrar com a desgraça, e as indústrias de armas e agências de segurança que recebem trilhões do dinheiro público sob a promessa de resolver segurança e violência sem progresso real por quarenta anos, são os verdadeiros e maiores inimigos (e piores criminosos) da América. A população, no entanto, ainda tende a conferir ares messiânicos e patriarcais aos seus representantes no Congresso, em ambos os continentes, sendo incentivada a isso pela alienação contínua promovida pelos meios de comunicação, igrejas, grupos religiosos e ideológicos e mesmo pela megaindústria do entretenimento — tudo planejado e financiado com interesse claro de alienar para explorar até a morte os cidadãos.

Produzir histórias sobre super seres imitando os gringos ou "capitães Brasil" nos será muito útil se forem personagens cosmopolitas (que não precisem estritamente atuar em território nacional ou serem caracteres exclusivamente brasileiros ou a tratar dos temas brasileiros ou latinos), inclusive se visamos inserção do material para outros mercados ou se for um canal para espiação crítica do tema, do contraditório. Principalmente porque já existe material excedente no mercado. Criar personagens e publicações que auxiliam na manutenção de estereótipos danosos, que geram alienação e confusão na mente de quem lê, fazendo uma leitura rasa dos graves problemas estruturais que fundam o país, coopera contra nossas aspirações como cidadãos e em favor de problemas aos quais precisamos enfrentar e vencer. Mesmo que o entretenimento não seja o lugar da educação, a arte opera a crítica social, estética, histórica e olha para o contemporâneo. Não significa que tenhamos a pretensão de "curar o mundo" mas que talvez estejamos olhando a "mudança climática em redor de nós" em busca de evitar as piores tempestades, ou aproveitá-las de algum modo. WN

Imagens: edições memoráveis da Interquadrinhos, dos anos 1990 — Brasil.

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