31/05/2026
Diariamente ouço frases incríveis de clientes na livraria. Hoje um desses comentários espontâneos me impressionou, comoveu-me até.
Disse a cliente: - "Minha manhã não foi boa. Por isso vim comprar um livro." - Percebem a profundidade da frase? E os signif**ados possíveis se ampliam, ao considerarmos que foi dito por uma psicóloga. Ela sabe do que está falando, e não precisa se explicar; precisa 'apenas'... falar.
Livros são lugares de leitura. Livrarias são lugares de fala e de escuta. Estou pensando até agora no que ela falou, sinto que agora é que escutei. E desejo a ela que sua leitura esteja boa, e seu dia tenha sido bom. Sua fala é um dos melhores elogios aos livros que conhecí. Um soco de coragem embrulhado em papel de seda. A psicóloga conhece o protocolo. Sabe que existe terapia, remédio, mindfulness, ligação pra amiga. Sabe nomear, diagnosticar, elaborar. E mesmo assim escolheu o gesto mais antigo: ir até onde as palavras moram, para se analisar no silêncio de outra voz. Uma confissão de fé secular: Admitir que a manhã não foi boa, sem justif**ar. Confiar que um objeto de papel com tinta pode reorganizar um dia inteiro. Eleger o livreiro como parte do ritual de cura, mesmo sem lhe pedir nada.
Livraria é onde a gente vai quando a leitura ainda nem começou. É pronto-socorro de manhãs ruins. É farmácia de alma sem bula. Ela não comprou autoajuda. Comprou literatura e possibilidade. Comprou o direito de tentar outro capítulo.
Escutar é virar testemunha de que dá pra consertar uma manhã com uma lombada nova.
Só de ter entrado na Texto & Cia e falado o que sentia, o dia dela já mudou de gênero: de tragédia para ensaio. Eis o motivo da pedra não rolar em vão. Tem motivo maior para uma livraria do que ser considerada um abrigo?
Obrigado por compartilhar o seu dia. Ele também fez o nosso!
- Gutto, Texto & Cia
(Imagem gerada por Meta IA)