22/08/2023
Registro de um dos dois canhões paulistas 150mm Schneider-Canet, retirados do Forte Itaipu, e empregados nos combates da Revolução de 1932.
Conforme a imagem, eram utilizados na linha férrea por meio de um vagão prancha, o que lhe dava fácil mobilidade e o tornava quase impossível de ser localizado pela artilharia adversária, pois isso lhe rendia considerável furtividade. Nota-se também na imagem os dormentes utilizados como calço ou apoio para a fixação da peça quando na preparação para seu disparo, conforme a descrição feita por Paulo J. Duarte no seu livro "Palmares pelo Avesso" (1947) que testemunhou o emprego dessa arma.
Eram dois ao todo: um utilizado nas linhas férreas da Cia Central do Brasil, no Vale do Paraíba (chamada de "frente norte"); e outro nas linhas da Cia Sorocabana (na chamada "frente sul"), na região do Alto Paranapanema. Eram canhões do 3º Grupo de Artilharia de Costa (3º G.A.C) do Forte Itaipu, situado em Praia Grande/SP.
Os paulistas chegaram a fabricar suas próprias granadas para serem empregadas nessa arma. E, apesar do improviso e da própria falha com alguns projéteis (alguns não detonavam no impacto), essa arma foi bem eficiente contra os adversários.
No livro “São Paulo Venceu!” (1933), do então jornalista Arnon de Mello (pai do ex-Presidente Fernando Collor), há um relato de uma ocorrência com esse canhão da artilharia paulista, a partir das declarações de um capitão das tropas adversárias (federais) que atuou no ''front'' de Queluz/SP, em julho de 1932:
“(...) o capitão conta-me o seguinte: ‘Elles [paulistas] possuem um canhão mysterioso. Chamamol-o de mysterioso, porque não se sabe onde se encontra. A nossa aviação já fez prodígios para descobril-o, mas não há jeito de situal-o. E o canhão continúa a bombardear impunemente a estação de Itatiaya.’ Levanta-se, pede um phosphoro a um empregado do Hotel e volta a falar, relatando agora um facto não menos interessante: "Uma bateria de 75 do 2º R.A.M. soffreu, há poucos dias, um ataque inesperado da artilharia paulista nas proximidades de Engenheiro Passos. Os nossos artilheiros já haviam escolhido o local para collocar os seus canhões. Quando, porém, se iniciava o trabalho de collocação, começaram a receber granadas do tal canhão mysterioso. Foi uma coisa horrível. Morreram alguns dos nossos e vários cavallos tombaram, attingidos por estilhaços. O commandante da bateria determinou, então, que se retirasse uma mesma peça de todos os canhões, depois do que se recuasse. Era quase noite. A ordem foi cumprida, tendo-se destacado, na sua execução, um cabo quase menino, que só deixou o local batido pela artilharia paulista depois de todo trabalho terminado." — (Arnon de Mello, “São Paulo Venceu!”, 1933, pág.72)
A imagem é do acervo do Centro de Memória da Unicamp.
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