29/07/2026
O que eu mais aprendi nesses quatro anos com a Black Cacau foi RESISTIR. Foi justamente nessa resistência que nasceu uma consciência crítica e histórica sobre a cadeia produtiva do cacau e chocolate no Brasil. As contradições e tensões que eu encontrei no percurso me tornaram quem eu sou.
Quando percebi que todo meu trabalho, que se dividiu entre diversas frentes, estava tendo prosperidade para uns e escassez para mim, eu tive um choque.
A consciência crítica que desenvolvi nesse período me revelou que os problemas que atravessavam a cadeia produtiva no Brasil são os problemas que atravessam o próprio Brasil. Ou seja, a questão era estrutural e histórica.
Em uma sociedade construída estruturalmente por essas tensões raciais, qual resultado isso assumiria?
Disputas por poder.
Quando comecei a viver as tensões, percebi que era necessário muito mais do que vínhamos realizando.
A minha inquietude era muito maior do que questões financeiras, de reconhecimento ou de legitimidade. Tudo isso, eu já havia conquistado.
Então, qual era a raiz do problema?
Foi entender que uma cadeia produtiva não se constrói sozinha e depende de organismos e instituições que hoje controlam os meios de produção e decidem quem tem direito a ser ou não.
A cadeia produtiva de cacau e chocolate no Brasil passou por colonização, escravidão, plantation, coronelismo e luta por acesso a terras. A luta política pelo cacau e chocolate é histórica e acompanha a história do Brasil.
Ou seja, eu estava lutando contra uma força muito maior: a estrutura.
Seria essa a “mão invisível do mercado?”
O que torna uma marca referência? Um empreendedor reconhecido e validado? Um chocolate legitimado ao ponto de ultrapassar essas barreiras quase intransponíveis para pessoas negras?
São muitos questionamentos.
Quem tem direito a falar? Quem escuta quando falamos? Quem tem o poder de determinar?
Os questionamentos fizeram efeitos concretos nas minhas decisões.
Não são as respostas que nos movem. São as perguntas.
Então, o que fazer para mudar algo que até então é histórico, estrutural, sistêmico e tão enraizado socialmente? Para respondê-las é necessário muito mais do que fizemos até agora.