06/09/2014
Uma pequena história para vocês pensarem...
Controle.
Era tudo em que o homem conseguia pensar. Um homem de passo pesado, decidido; sereno, em suas menos-que-nobres intenções.
Caminhava por um corredor largo, luxuoso... um luxo rústico, de outros tempos. Móveis de madeira nobre, basos e estátuas de marfim, enfeites tribais.
E espelhos. Muitos espelhos, enormes, com bordas trabalhadas em palha. Neles se via tudo, menos o reflexo do homem, que passava arrancando olhares furtivos dos serventes africanos. Gostava de ver o respeito no olhar dos súditos de seu pupilo, que há muitos anos passara a considerar como seus.
Respeito ou medo?
Pouco importava. Desde que fizessem o que ele mandasse.
Ah... o domínio sobre os homens, sobre as almas. A busca pelo controle total.
Já estava mais do que na hora de acabar com aquele joguinho. Seu aprendiz ganhara confiança demais, concentrara poderes demais, começava a querer pensar por conta própria... aquilo era perigoso. Não podia ser tolerado.
Sereno, passou pelos guardas, que o cumprimentaram batendo suas lanças contra o piso de mármore, e entrou no salão. Um salão vasto e vazio, a não ser pelo trono de marfim e o rei que nele sentava, consultando-se, aflito, com seus chefes militares. Nem que rogassem a todos os òrìsà conseguiriam impedir a invasão do Reino. Não dessa vez. Não sem sua ajuda. O grande exército de Oyó, temido por todas as terras d'África, não mais conseguiria inutilizar miraculosamente as armas do inimigo.
Os chefes davam notícia do ataque surpresa. Descreviam como os cavalos, sempre tão corajosos, agora pareciam querer fugir dos invasores. O rei ouvia a tudo atentamente, apoiando o queixo sobre seu poderoso cajado de madeira maciça, tentando disfarçar o desespero.
Aquela era a hora. O homem aproximou-se a passos firmes. Ao vê-lo chegar, o rosto do rei se iluminou, como uma criança vendo doce. Seu mestre de tantos anos... Ele certamente saberia o que fazer.
Pobre coitado... ainda acreditava nas boas intenções do mentor. Todos já sabiam. Todos já temiam aquele homem. Menos o rei, que, inocentemente, punha toda sua confiança nele. Naquele que havia lhe ensinado tudo que ele hoje sabia.
Por que o fizera? Por que ensinara? Nem o mentor sabia ao certo. Para matar o tempo, talvez. Como diversão. Para ter o que fazer.
Mas o fato é que a brincadeira tinha ido longe demais.
Dispensando seus súditos, o rei ergueu-se do trono e caminhou com ânimo renovado em direção ao mestre, abrindo os braços para abraçar a única pessoa capaz de eliminar seus problemas.
O mestre, no entanto, não se moveu para abraçá-lo como sempre fizera. Em vez disso, apontou sua varinha negra na direção do rei, que parou espantado.
Percebendo que afastara-se imprudentemente do trono sem seu cajado, só lhe restou olhar perplexo para o mentor, incapaz de compreender o motivo da traição.
Sem sentir qualquer remorso, o mestre observou por mais alguns segundos seu pupilo indefeso, como quem examina pela última vez uma foto que pretende queimar, e então, sem mais delongas, pronunciou o feitiço que mudaria para sempre o destino dos dois.
~Pixie
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