20/09/2020
Arte que inspira Arte
A escultura desperta um novo olhar na construção de violinos!
Quem é que nunca brincou de estátua?
Eu por exemplo curtia muito, e naquela época valia mais a diversão do que qualquer outra coisa, mas lembro de ficar todo rígido, e quanto mais fingisse estar estático, mais ia longe no jogo, mas será que este gesto intuitivo de tensionar a musculatura, é algo natural?
Das influências que me levaram subliminarmente a isto, as mais presentes no dia a dia, foram manequins em lojas de roupas, bonecos articulados de brinquedo, estilos de danças com gestual geométrico e robótico, e artistas de rua fazendo estátua viva ...
Certa vez, atravessando o viaduto Diário Popular a pé, ao olhar para o prédio do Palácio das Indústrias, Brás, São Paulo, onde hoje é o museu Catavento, observei durante quase 30 uns minutos, umas esculturas de cachorros que ficam bem nas arestas dos muros, sobre colunas, porque sério, parecem estar vivas!
A impressão que tive é que iam latir ou morder a qualquer momento, então, o que será que eu estava vendo mas não estava enxergando?
Anos mais tarde, eu e minha irmã Valquiria estavamos com meu pai, passeando aquí em Sampa, no centro velho da cidade, e ele nos mostrava esculturas consagradas, como a cópia do Moisés de Michelangelo, as duas mulheres de Brecheret, inclusive, ambas na galeria Prestes Maia, entre outras que vimos ao redor também, papai sempre tecendo elogios aos trabalhos expressivos, os enaltecendo, e eu querendo participar pouco da seção de elogios, mencionei que Michelangelo era extremamente detalhista, porque pode-se notar até as veias nos braços, as iris nos olhos, a textura linheira do cabelo e barba, dobras do tecido perfeitas etc, mas ele frisou que outros artistas da mesma época, foram até mais detalhistas do que ele, mas não aconteceu nada, confesso isto serviu pra me deixar inquieto e em dúvida, pois havia um certo "segredo" no ar, para complicar, quando víamos obras que ele não gostava (e olha que não foram poucas), nossa, simplesmente as massacrava, mas sem explicar até então, a diferença entre os níveis entre extremos, e em meio a comentários que, ora confetes, ora pauladas, surgiu uma pergunta que afinal esclareceria tudo, disse a maninha : O que faz uma escultura ser boa?
Ele respondeu com voz brada e retumbante:
A ação dos músculos expressar movimento!
E já aproveitou o ensejo, pra falar de um exemplo que reforçava ainda mais a idéia, claro, já que estavamos ali, vendo justamente uma cópia do mestre italiano, contou que Michelangelo, no ápise da execução deste Moisés, bateu com a marreta na escultura e exclamou, porque não falas!!!
Ah! Naquele momento eu entendi então o por quê das esculturas daqueles cachorros, que eu tinha visto anos atrás, de Nicolo Rollo, serem tão impressionantes e reais, além da técnica apurada, estilo, anatomia e proporções perfeitas, elas mostram a expressão de um instante em que ouve uma ação muscular e espontânea!
Um fato curioso, que eu soube muito tempo depois, o Rollo foi professor do Rafael Galvez, e o Rafael, professor do meu pai, mundo pequeno, não? Embora eu não tenha tido oportunidade de estudar com nenhum destes três grandes artistas, a obra deles não deixou de impactar em minha vida da mesma maneira, pois hoje busco observar como os grandes construtores de violinos do passado, expressavam algo que ia além da técnica, que os levou a alcançar reconhecimento tanto na epoca em que viveram, como na atualidade, destacando-se de seus contemporâneos, porque criaram seu próprio estilo, e tiveram uma concepção não só artística, mas sobretudo centrada na funcionalidade do som. Quando paramos para pensar, notamos que tudo no violino parece remeter a algo, no tempo ou no espaço vetorial, você pode lembrar da sonoridade de uma música, seja ela barroca, clássica ou de uma partitura, com suas notas na pauta e uma linda clave de sol.
As linhas do design do corpo do instrumento, já inspiraram e ainda inspiram, muitas pinturas, composições fotográficas, cenas românticas, criativas e até ousadas, porque ao observar tais linhas, geram sensações e impressões em nós, um exemplo, as aberturas acústicas, é como se os "Efs" do tampo estivessem olhando para mim, dependendo de como são as curvas, parecem estar sorrindo, fazendo cara de mau, tristes ou simplesmente serenos, é, eu sei que é uma viagem falar nisso, mas, precisamos pensar de forma lúdica às vezes, para entender melhor as ideias de estilo, porque, se a definição de estilo, for a grosso modo o jeito peculiar de ser ou fazer as coisas, então, seremos sempre nós mesmos, sempre na minha maneira de fazer, tento deixar claro a interpretacão que tenho das formas, mesmo de um modelo copiado, como acontece na música, o autor deixou a partitura, mas na maneira de cada um entender, leva a dar a suas próprias direções nas frases, porque temos a nossa propria caligrafia e impressão digital, naquilo que somos e que fazemos, é até possível tentar se passar pelo autor, mas existem especialistas em identificar a origem das cópias, mesmo que sejam exímios os copistas, no casos de violinos famosos, Jean B. Vuillaume fazia notáveis réplicas de Guarneris e Stradivarius, assim como as de Gagliano produzidas por Alfredo Contino, são de mesma excelência também, mas olha que loucura, pensa, saber quem é o autor de uma cópia, sendo que única etiqueta no instrumento imita a do original, isto só possivel porque inegavelmente, somos quem somos, únicos na história!!!
A escultura da voluta do violino também revela muita coisa sobre quem a fez, ela tem tem como base a inspiração nas colunas gregas, mas este será assunto para um outro texto, então se você gostou, curta, comente e compartilhe, pois isto ajudará a difundir a cultura e levar um pouco da minha história e relação com a arte, assim como despertei um dia, você e muitos outros poderão despertar também!!!