24/08/2026
Projeto Resenhas EDUNEB: ENTRE OS MUROS DA EXCLUSÃO.
ENTRE OS MUROS DA EXCLUSÃO TRAJETÓRIAS DE “ALIENADOS” NA BAHIA (1903-1916) SEPÚLVEDA, P. M. Entre os muros da exclusão [online]. Salvador: EDUNEB, 2023
Resenha de Maria Vitória Coutinho e Silva Figueiredo de Almeida.
Graduada em Licenciatura em Ciências Sociais e graduanda em Bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
Leia a resenha também no SKOOB:
https://www.skoob.com.br/pt/book/122694438/reviews?filter=recents
E no site da EDUNEB:
https://eduneb.uneb.br/projeto-resenhas-eduneb-entre-os-muros-da-exclusao/
1. APRESENTAÇÃO DA OBRA
A presente resenha tem como objetivo realizar uma análise descritiva e crítica da obra Entre os muros da exclusão: trajetórias de “alienados” na Bahia (1903-1916) (2023), publicada pela Editora da Universidade do Estado da Bahia (EDUNEB). Escrita por Patrick Moraes Sepúlveda, mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da UNEB, a obra apresenta os resultados de sua pesquisa de mestrado, desenvolvida a partir de diversas fontes documentais, entre elas periódicos de circulação popular e científica, a Gazeta Médica da Bahia e diferentes jornais da época. Estruturado em dois capítulos, o livro analisa as relações entre saúde mental, história, loucura e psiquiatria no contexto baiano. O primeiro capítulo aborda o cenário da psiquiatria e sua relação com a instituição asilar, enquanto o segundo analisa as trajetórias dos chamados “alienados” no período delimitado pela obra, discutindo também as concepções de loucura em circulação nos séculos XIX e XX.
2. RESENHA DESCRITIVA E CRÍTICA DA OBRA
Como ponto de partida para a pesquisa, o historiador formula questões centrais que orientam sua investigação: “O que era considerado loucura na cidade de Salvador? Quais os critérios utilizados pelos psiquiatras para explicar as doenças mentais? Como os alienados reagiram à disciplina institucional?” (p. 7). Essas perguntas são fundamentais para a constelação de ideias que norteia a obra, servindo de base para as análises e reflexões desenvolvidas ao longo do livro. O autor parte da concepção de que os ditos alienados eram caracterizados, primordialmente, por não se adequarem aos padrões comportamentais idealizados na época e, por isso, eram considerados socialmente indesejáveis. Essa perspectiva, defendida pela classe dominante, sustentava que a circulação desses indivíduos pela cidade representava riscos à ordem social, legitimando, assim, a necessidade de uma instituição destinada à sua reclusão.
Para este trabalho, Sepúlveda recorre aos estudos sobre o Asilo São João de Deus, a primeira instituição manicomial da Bahia, fundada em 1874. A partir dessa análise, o autor examina casos de reclusos, como os de Aprígio Bacellar Ar**ha, Joaquim Pereira Navarro e Pedro da Silva Rego, pacientes da instituição entre 1912 e 1914.
Ao evocar casos de pacientes, o autor recorre a uma fundamentação teórico-metodológica orientada pela História Social Inglesa, à luz das contribuições de E. P. Thompson, partindo da compreensão de que as ações dos sujeitos são complexas e constitutivas das dinâmicas sociais. Nessa perspectiva, evidencia-se que, mesmo em contextos de exclusão, os sujeitos participam e interferem na construção dessas dinâmicas. Além da História Social Inglesa, autores como Foucault e Chalhoub contribuem para o debate sobre a loucura. Foucault (2002), relaciona a loucura à exclusão social, enquanto Chalhoub (2012) evidencia a influência da produtividade econômica na perspectiva médica, que categorizou como alienados aqueles considerados sem potencial produtivo.
Na Europa, nos séculos XIX e XX, constituiu-se a concepção da loucura enquanto algo a ser estudado, marcada pela associação às emoções e à degenerescência biológica, com médicos como Philippe Pinel e Emil Kraepelin. No Brasil, a literatura médica do Primeiro Período Republicano alinhava-se às ideias do racismo científico e do higienismo, apontando a população negra e pobre como predisposta à loucura, à violência e à inferioridade racial. Desse modo, o autor evidencia como as desigualdades sociais influenciaram a compreensão da loucura e contribuíram para o surgimento de estratégias de reclusão voltadas aos indivíduos considerados prejudiciais à ordem social.
A obra pode ser considerada uma importante referência para os estudos em História da Ciência e sua intersecção com as políticas de saúde, ao evidenciar que as condições de saúde e as formas de tratamento não são determinadas apenas por fatores biológicos, mas também pela posição social dos sujeitos e pelas relações de poder. Ao abordar casos como os de Joaquim Pereira Navarro e Pedro da Silva Rego, o historiador evita julgamentos morais maniqueístas e evidencia a complexidade dos comportamentos em seus contextos sociais. Nesse sentido, o Asilo São João de Deus não deve ser compreendido, apenas, como instituição hospitalar, mas como um espaço marcado pela contradição e atravessado por uma mentalidade de controle social, na qual ciência, saúde e poder se articulavam na definição e na reclusão dos chamados “alienados”.