11/04/2021
Em 2 de abril de 1983, no Rio de Janeiro, falecia a mineira, filha do casal Manuel Pereira de Araújo e Amélia Gonçalves Nunes, Clara Nunes, nome artístico de Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, a caçula de 7 irmãos. Pinheiro era seu sobrenome de casada. Muito pequena, perdeu seus pais e foi criada pelos irmãos. A vida não foi das mais fáceis e ouvir cantar as divas do rádio faziam-na sonhar.
Curiosa, queria conhecer profundamente os mistérios da fé. Encontrou na religião de matriz africana as respostas que procurava e com seu canto buscou dar visibilidade e respeito as suas crenças. As três raças que compõem este País foram representadas em suas músicas.
Clarear, serenar, cantar, musicar, alegrar, tirar do coração as tristezas eram o seu objetivo. Guerreira, mostrou ao Brasil a Morena de Angola que trazia o chocalho amarrado na canela.
No Rio de Janeiro ela viu o mar pela primeira vez, e isso foi certamente um dos mais marcantes encontros de sua vida. Uma sereia que brincou na beira do mar!
A quatro meses de completar 41 anos, em um Sábado de Aleluia, partiu para a Eternidade. Foi sepultada no Cemitério São João Batista. A comoção tomou conta dos fãs. Na Cidade Maravilhosa apaixonou-se perdidamente pela Escola de Samba Portela e em sua homenagem, após sua morte, a rua no bairro Oswaldo Cruz, onde está a sede da Portela, recebeu seu nome.
No Carnaval de 2019, o último antes da COVID-19, Portela honra sua memória:
"Na Madureira Moderníssima, hei sempre de ouvir cantar um sabiá".
Esse Sabiá todos sabemos que chegou para clarear e serenar, um canto que atravessou o tempo, uma voz que encanta quem a escuta.
Canto das Três Raças
(Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)
Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil
Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou
Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou
Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou
E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor
E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador
Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas
Como um soluçar de dor
Fátima Fabiana