18/02/2026
𝓤𝓶𝓪 𝓱𝓲𝓼𝓽𝓸́𝓻𝓲𝓪 𝓭𝓮 𝓒𝓪𝓻𝓷𝓪𝓿𝓪𝓵.
𝙽𝚘𝚝𝚊 𝚍𝚘 𝚊𝚞𝚝𝚘𝚛: 𝚝𝚛𝚊𝚝𝚊-𝚜𝚎 𝚍𝚎 𝚞𝚖𝚊 𝚑𝚒𝚜𝚝𝚘́𝚛𝚒𝚊 𝚟𝚎𝚛𝚒́𝚍𝚒𝚌𝚊 𝚌𝚘𝚖 𝚘 𝚗𝚘𝚖𝚎 𝚍𝚊 𝚙𝚎𝚛𝚜𝚘𝚗𝚊𝚐𝚎𝚖 𝚊𝚕𝚝𝚎𝚛𝚊𝚍𝚘.
A D. Adelaide esperava junto ao balcão pelo seu pastel de carnaval, que havia encomendado há mais de uma semana.
Telefonava, como era seu hábito desde sempre, muito tempo antes do ansiado dia de Carnaval. Pensava que, desta forma, prolongava aquele momento especial da vida, que guardava com muito cuidado e carinho.
A D. Adelaide, ou Delaidinha, como assim permitia que a tratassem as pessoas conhecidas, era uma senhora já bem entrada na idade, amável, de traços finos e maneiras suaves. Neste dia, contudo, notava-se-lhe uma inflexão na sua voz, que denunciava uma emoção incontida.
Àquela hora da manhã, bem cedo, como não havia mais nenhum cliente no balcão da entrada, deu azo a que a conversa fluísse.
- Sabem, tenho uma história especial onde entram os vossos pastéis de carnaval. Foi precisamente há 60 anos, que pela primeira vez os provei, - disse sem conseguir esconder o tom de voz saudoso.
- Oh! D. Delaidinha, como gostaríamos que nos contasse a sua história...
- Eu tinha 15 anos, e o meu falecido marido 18. Estávamos em minha casa, com os meus pais, a lanchar os pastéis que ele daqui levara, como pretexto. E foi nessa tarde que pediu a minha mão aos meus pais, como se fazia nessa época. Como eu era muito nova o meu pai aconselhou a que esperássemos mais alguns anos, - agora os seus olhos estavam húmidos, conseguindo recompor-se com algum custo, - a sua opinião foi respeitada, continuamos, porém, todos os anos a repetir esta tradição de Carnaval...
- que bonita história Delaidinha, como é bom recordar..., - dissemos para aliviar a tensão, criada pelo silencio que cortou por segundos a narrativa.
Entretanto, chegava o pastel colocado numa redoma, redolente, e impôs uma mudança ao rumo da conversa, magnetizando os olhares que se deliciavam com o aspeto do famoso doce, especial desta época.
- Não há mais ninguém que os faça assim, grandes e estaladiços, - assegurava a D. Adelaide com propriedade e do alto da sua idade longeva.
- Antigamente só vocês os faziam para vender, e também em algumas casas fidalgas para consumo privado. Era uma altura em que se podia pregar partidas, e metiam-lhes dentro, por exemplo, uma rolha, - o seu rosto abrira-se num bonito sorriso, e continuou, - que belos e felizes tempos!
O táxi já esperava à porta, para levar a boa senhora de volta a casa.
- Um dia virei com mais tempo para continuarmos, agora tenho de regressar a casa, - dizia enquanto se dirigia para a porta aberta do automóvel, partindo com o embrulho nas mãos, cruzando-se com os clientes que vinham a entrar, sem que pudessem perceber que aquela senhora idosa levava a felicidade nas mãos.