03/12/2025
Bem-haja❤️
A nossa livraria, partiu, mas não foi esquecido.
Até logo❤️
FECHOU A LIVROS TINTOS
por José Pires Formoso
Um belo nome para uma livraria
Era a primeira livraria em Portugal aberta por um imigrante. Isto aconteceu no Fundão entre Fevereiro de 2024 e Agosto de 2025. Durante dezoito meses, que mais pareceram três anos, esta livraria (a única no Fundão) foi o ponto de encontro quotidiano de artistas e escritores e leitores conhecidos e desconhecidos, onde se sonhava a utopia cultural e se acolhiam migrantes. Este local caloroso e fraternal foi um autêntico vulcão de cultura acolhendo apresentações de livros, recitais de poesia, encontros de cineastas nacionais e estrangeiros, exposições de pintura, palestras sobre literatura e arte, e até convívios de crianças, assim como festejos de aniversário de clientes e amigos frequentadores. O proprietário era Gabriel Maritz, Zeff para todos nós, poeta e escritor, que nasceu na África do Sul e atracou no Fundão, vindo da Irlanda, de uma maneira curiosa. Um dia pegou no mapa de Portugal, abriu-o e gostou do nome de Fundão no centro do país e pensou que podia ser feliz nesta cidade. E foi o que aconteceu. Para isso, instalou a sua caravana em plena natureza, a pouco mais de dez quilómetros do Fundão, perto do Telhado. Assim nascia a aventura da Livros Tintos até que os fogos do último Verão destruíram a sua caravana e os seus sonhos de ficar em Portugal. É já em Novembro que o nosso amigo Zeff vai partir para a África do Sul porque não consegue um visto de residência. Ele contou-nos a sua aventura kafkiana, igual à de tantos infelizes imigrantes.
Kafka no SEF e na AIMA
Gabriel é sul-africano e a sua mulher inglesa. A filha deles nasceu na Irlanda e tem passaporte irlandês. O objectivo deles, quando vieram em 2022 da Irlanda para Portugal, era obter a residência no nosso país com base no facto de serem pais de uma criança da União Europeia. Durante muito tempo tentaram marcar uma consulta com o SEF e, mais tarde, com a AIMA, mas sem sucesso. Contactaram um advogado e até este não obteve nenhum resultado. A situação kafkiana continuou e em Março de 2025 lá veio apenas uma marcação, para ele, e não para a mulher. A marcação era em Faro, no Algarve, e deram-lhe apenas cinco dias para reunir todos os documentos necessários. Gabriel não conseguiu porque alguns documentos, como o certificado criminal da polícia irlandesa, demoram cerca de um mês para serem emitidos. Por outro lado, se um imigrante comparecer à marcação da AIMA sem todos os documentos correctos, este instituto público envia depois uma carta de saída voluntária de Portugal, dando vinte dias para o imigrante sair. Se este não cumprir, inicia-se o processo de deportação. E Gabriel conclui: «É esta a situação em que nos encontramos, eu, a minha mulher e a minha filha. Estamos prestes a sair de Portugal, em direcção à África do Sul».
Vistos Gold e Vistos dos Pobres
A cruel hipocrisia do governo de Montenegro é total e a sua teimosia de cercear e entravar a entrada de imigrantes é mais um oportunismo político e propaganda de momento para caçar votos na coutada do Chega. Se o Gabriel tivesse milhões, logo a sua situação se resolveria num instante e rapidamente usufruiria de um Visto Gold. Esta posição do governo de Montenegro prejudica evidentemente o país e a curto prazo a sustentabilidade da Segurança Social para a qual muitos imigrantes contribuem em larga escala. O fascista André Ventura e o descarado oportunista Montenegro, que pode um dia destes ter de prestar contas à justiça, não são eternos e podem de um momento para o outro perder a credibilidade, serem afastados por cidadãos que votam ou por estarem envolvidos em ilicitudes. Gabriel está esperançoso em voltar e quem sabe reabrir a Livros Tintos no Fundão. Nós somos pela política das portas escancaradas. Todos os imigrantes são bem-vindos. E quantos mais, melhor.