19/03/2021
𝙐𝙢𝙖 𝙧𝙪𝙖 𝙣𝙖𝙨 𝙩𝙧𝙖𝙨𝙚𝙞𝙧𝙖𝙨 𝙙𝙤 𝙗𝙤𝙪𝙡𝙚𝙫𝙖𝙧𝙙
Os trabalhos de abertura da Avenida da Liberdade iniciaram-se em
1879 e o boulevard, como essa artéria era então oficialmente designada, foi inaugurado em 1885. Este novo e importantíssimo fenómeno urbano que despoletou a expansão de Lisboa para norte, relegou o velho eixo urbano das ruas de Santo Antão – São José – Santa Marta – São Sebastião para as traseiras da cidade moderna e burguesa que, com a Avenida se iniciou. Este eixo urbano, antiga corredoura medieval, funcionou até essa data como um dos acessos principais ao centro de Lisboa, e manteve-se intacto até hoje, integrado na nova malha urbana que a ele se foi sobrepondo. Paradoxalmente, em vez de ser votado ao abandono, o troço sul do velho eixo urbano – Rua das Portas de Santo Antão – foi espectacularmente valorizado com a instalação de importantes equipamentos urbanos. Equipamentos esses que o novo boulevard, que se queria animado e cosmopolita, nunca chegou a ter. Em vez de se investir na nova Avenida, como seria de esperar, foi na velha rua doravante situada nas suas traseiras, que se investiu, evelando-nos que algo de paradoxal acontecia no processo de modernização da cidade de Lisboa, entre 1890 e 1925.
A Rua das Portas de Santo Antão, com todos os equipamentos modernos que aí se foram instalando entre 1890 e 1925, pode ser entendida como o paradigma da modernidade lisboeta, modernidade estranha, híbrida, em que a porosidade entre passado e presente foi sempre permanente: novos equipamentos numa rua estreita, fachadas difíceis de ser observadas como a do
Coliseu, novas utilizações de espaços ancestrais como a ocupação pelo Ateneu Comercial do Palácio Povolide, como a instalação do Clube Magestic no Palácio Alverca, do Bristol Club num prédio de rendimento, e espaços sempre reutilizados, como Associação Comercial no Clube Palace ou a Sociedade de Geografia no edifício do Coliseu.
Com uma diversidade espectacular de usos: comércio, habitação, pensões, pequenos escritórios, teatros, clubes, esta rua pode ser vista, ainda hoje, como a galeria que Lisboa nunca possuiu, uma passage mas feita a céu aberto. Todas as classes sociais se cruzam no espaço desta rua: se os seus recintos interiores se pensaram socialmente estratificados, o espaço da rua tem sido sempre ocupado por uma amálgama de todas as camadas da sociedade lisboeta. Por uma ou outra razão, cada habitante de Lisboa já por lá passou. Esta rua funciona como um mostruário dos habitantes da cidade, e dos seus gostos, cada qual praticando o espaço urbano à sua maneira.