05/04/2026
A MORTE DE JESUS NA CRUZ
Havia um sentimento unânime e evidente entre os discípulos relativamente à morte de Jesus: eles estavam dominados pela dor e indignação. Estevão, por exemplo, fervendo de indignação pela ignorância e descrença dos líderes judeus, condenou as suas ações, chamando-os de assassinos e rebeldes: "Homens de cerviz dura, incircuncisos de coração e de ouvidos, sempre vos opondes ao Espírito Santo, como foram os vossos pais, assim sois vós também. Qual foi o profeta que os vossos pais não tenham perseguido? Mataram os que predisseram a vinda do Justo, a quem traístes e assassinastes" (Atos 7:51-53).
Se a morte de Jesus tivesse sido o resultado predestinado para o cumprimento da Vontade de Deus, então teria sido natural que os discípulos ficassem tristes com a sua morte, mas não teriam ficado tão amargamente ressentidos, nem tão irritados com os líderes judeus que a causaram. Podemos deduzir da sua reação dolorida que a morte de Jesus foi injusta e indevida.
Deus escolheu o povo de Israel de entre os descendentes de Abraão. Protegeu-os, alimentou-os e, por vezes, disciplinou-os através de tribulações e provas. Deus enviou profetas para os confortar com a promessa inabalável de que um dia lhes enviaria um Messias. Preparou-os para receberem o Messias, fazendo-os construir o Tabernáculo e o Templo. Quando Jesus nasceu, Deus proclamou o seu advento. Ele enviou os três magos do Oriente, Simão, Ana, João Baptista e outros para testemunharem a vinda do Messias. Como a Vontade de Deus era que o povo judeu desse tempo acreditasse em Jesus como sendo o seu Messias, o povo judeu, que tinha sido preparado para viver de acordo com a Vontade de Deus, devia acreditar nele. Se o povo tivesse acreditado em Jesus, como Deus o desejava, ter-lhes-ia alguma vez passado pela mente enviar Jesus para a cruz? Quereriam os judeus que acontecesse algum mal ao Messias por quem há tanto tempo esperavam tão ansiosamente? Contudo, porque se rebelaram contra a Vontade de Deus e não acreditaram que Jesus fosse o Messias, ele foi entregue para ser crucificado. Neste sentido, podemos compreender que Jesus não veio para morrer na cruz.
As palavras e ações de Jesus tinham como intenção fazer o povo acreditar que ele era o Messias. Por exemplo, quando as pessoas lhe perguntaram sobre o que deviam fazer para realizar a obra de Deus, Jesus respondeu: "A obra de Deus é esta: que acrediteis naquele que Ele enviou." (Jo 6:29) Um dia, angustiado pela descrença dos fariseus, e não tendo ninguém com quem partilhar o seu coração, Jesus olhou com tristeza para a cidade de Jerusalém e chorou, lamentando o destino do povo judeu que Deus havia guiado, com tanto amor e empenho, durante dois mil anos. Jesus profetizou que a cidade seria de tal modo destroçada que não ficaria pedra sobre pedra. Ele claramente evidenciou a ignorância do povo dizendo: "por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada" (Le 19:44). Em outra ocasião, Jesus lamentou a teimosia e descrença do povo de Jerusalém dizendo: "Jerusalém. Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis reunir os teus filhos como a galinha aconchega os seus pintainhos sob as asas, e tu não quiseste!" (Mt 23:37)
Jesus censurou o povo que se recusava a acreditar nele, apesar de conhecer as Escrituras que davam testemunho da sua vinda:
"Esquadrinhais as Escrituras, julgando ter nelas a vida eterna. Pois bem! São elas mesmo que dão testemunho de mim, e não quereis vir a mim para que tenhais a vida." (Jo 5:39-40)
“Vim em nome de meu Pai e não me recebeis... se acreditásseis em Moisés, acreditaríeis em mim, pois ele escreveu a meu respeito." (Jo 5:43-46)
Quantos milagres e sinais Jesus realizou na sua tentativa desesperada de arrancar o povo da sua descrença! Todavia, mesmo testemunhando as obras maravilhosas de Jesus, os líderes religiosos escarneciam dele como se fosse possesso por Belzebu (Mt 12:24). No meio de uma condição tão miserável, Jesus disse:
"Mas se as faço, e não credes em mim, crede nas minhas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu n Ele." (Jo 10:38)
Depois, confrontando os seus opositores, denunciou contundentemente a sua hipocrisia:
"Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque fechais aos homens o Reino do Céu! Não entrais vós nem deixais que entrem os que o querem entrar..."(Mt 23:13-36).
Através das suas palavras e ações, Jesus tentou convencer o seu povo a acreditar nele porque essa era a Vontade de Deus. Se eles tivessem seguido a Vontade de Deus e acreditado em Jesus como sendo o Messias, quem de entre eles ousaria crucificá-lo? Por todas as evidências acima referidas, podemos deduzir que a morte de Jesus na cruz foi o trágico resultado da ignorância e descrença do povo do seu tempo; essa não era necessária para cumprir completamente a sua missão de Messias. Esta ideia está bem ilustrada nas últimas palavras de Jesus na cruz:
"Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem." (le 21 14)
Se Deus tivesse predestinado, originalmente, a morte de Jesus na cruz, Jesus teria seguido esse caminho como sendo o seu destino. Então, por que razão orou três vezes: "Meu Pai, se é possível afasta de mim este cálice, todavia, não seja como eu quero, mas, como o queres"(Mt 20 310), Na verdade, Jesus ofereceu essas orações desesperadas porque sabia bem que a sua morte destroçaria a esperança de alcançar o Reino do Céu na terra. Isto seria uma trágica deceção para Deus que vinha trabalhando tão incansavelmente para realizar esta esperança ao longo de tanto tempo desde a Queda. Além disso, Jesus sabia que o sofrimento da humanidade continuaria sem alívio até ao momento da sua Segunda Vinda. Jesus disse: "Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também tem de ser levantado o Filho do homem"(Jo 3:14), Quando os Israelitas perderam a fé em Moisés no caminho para Canaã, apareceram serpentes ardentes que começaram a matá-los. Deus ordenou a Moisés que construísse uma serpente de bronze e a colocasse num poste, de modo a que todos os que olhassem para ela pudessem viver (Nm 21:4-9). De igual modo, Jesus previu que, devido ao facto de o povo escolhido não acreditar nele, a humanidade seria destinada ao inferno. Ele previu que seria então pregado na cruz como a serpente de bronze a fim de salvar toda a humanidade, garantindo a salvação para todos os que olhassem para ele. Prevendo esta eventualidade, Jesus proferiu esta profecia de mau presságio com o coração desolado. Um outro indício de que a morte de Jesus na cruz não era a Vontade de Deus, mas antes a consequência da descrença do povo, é que Israel entrou em declínio depois da crucificação. Afinal, tinha sido profetizado que Jesus viria e se sentaria no trono de David e estabeleceria um Reino eterno:
"Porquanto um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; tem a soberania sobre os seus ombros, e o seu nome é Conselheiro Admirável, Deus-poderoso, Pai-Eterno, Príncipe da paz. Dilatará o seu domínio com uma paz sem limites, sobre o trono de David e sobre o seu reino. Ele o estabelecerá e o consolidará com o direito e com a justiça, desde agora e para sempre. Assim fará o amor ardente do Senhor do universo." (Is 9:5-7)
Um anjo apareceu a Maria antes da conceção de Jesus e proferiu um vaticínio semelhante:
"Hás de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus dar-lhe-á o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim." (Lc 1:31-33)
A clara intenção de Deus para o povo escolhido de Israel, que Ele tinha guiado ao longo de toda a espécie de tribulações desde o tempo de Abraão, era enviar-lhe o Messias e construir um Reino eterno na terra. No entanto, quando os dirigentes judeus perseguiram Jesus e o levaram à cruz, Israel perdeu a sua qualificação para ser a nação fundadora do Reino de Deus. Em poucas gerações, o povo de Israel foi disperso por toda a terra e, desde então, tem sofrido opressões e perseguições. Isto pode ser entendido como uma trágica consequência do erro que os seus antepassados cometeram ao condenarem à morte o Messias, a quem deviam ter honrado, impedindo assim o cumprimento da providência da restauração. Além disso, não só os judeus, mas também muitos cristãos fiéis tiveram de carregar a cruz pelo pecado coletivo de terem assassinado Jesus.