13/06/2019
«Eu, Buda»
Um homem nasce, vive, morre e renasce. Se foi bom e justo, a vida seguinte, encarnado num animal ou numa planta, compensá-lo-á. Se não o foi, a próxima existência será o castigo. Ao ciclo chama-se Samsara. Os homens procuram desde sempre a Libertação Final, o quebrar do ciclo: a saída do Samsara. O paraíso é o nada, a paz interior, o nirvana.
Siddartha Gautama é, na versão de Frèches, o filho de um importante guerreiro Çakia - na de Herman Hesse, por exemplo, é filho de um brâmane - e conhece apenas os contornos belos do mundo. Não viu a pobreza, a fome ou a morte. Nem sabe sequer que existem. Mas algo o impele a completar o seu conhecimento da realidade, a contrariar as ordens do pai. É no momento em que decide ver o outro lado de Kapilavastu que o budismo começa.
José Frèches, um antigo conservador de museu e um apaixonado pela China, traz-nos aqui a sua ideia de como seriam as memórias de Siddartha - «Eu, Buda» é o título da obra, editado este ano pela Bertrand - e dos primeiros passos do budismo, uma filosofia de vida que acabaria por inspirar outras religiões, como o cristianismo.
Pontes entre crenças
As semelhanças são certamente em «Eu, Buda» mais do que pura coincidência: Siddartha e Cristo resistem respectivamente às tentações de Mara, o senhor da morte, e Satanás; Judas e Devadatta, seguidores de ambos, traem os mestres; Ambapali e Maria Magdalena são pr******tas que se convertem quando se atravessam no seu caminho.
É óbvio que há mais pontes entre o budismo e o cristianismo. Ambos reúnem seguidores, a quem pedem que abandonem tudo para que se convertam, e nas últimas páginas do livro deixa-se escapar que Buda também era homem de fazer milagres. Será ainda o «Caminho do Meio», idealizado seis séculos antes de Cristo, tão diferente dos ensinamentos do Messias? «Sim, chamo assim o entendimento justo, a vontade perfeita, a linguagem pura, a acção pura, os meios de existência puros, o esforço perfeito, a atenção perfeita e a meditação perfeita. Esse é o bom remédio que conduz à supressão da ignorância, à supressão do Sofrimento e das reencarnações, ou seja, ao nirvana...»
Um Siddartha tão próximo de nós
Para o «Desperto», a vida é feita de sofrimento e são a sede e o desejo de possuir que estão na sua origem. Só o desprendimento pode acabar com a dor. Em mais 270 páginas, Siddartha revela-nos a sua revolta perante a desgraça dos mais pobres, as dúvidas dos primeiros dias, as ideias a tomarem forma, a dor com a morte da mulher e do filho, a consciência da traição e do próprio fim. Abre-nos a porta do seu quarto na primeira noite com Yashodara, a mulher, e volta a transpirar sensualidade quando revela a intimidade de Yasa com a pr******ta Ambapali, em breve seus seguidores.
Chegamos à última página e descobrimos que podíamos ser amigos deste Buda e, ainda mais, que acreditamos na sua existência e tal como ela é descrita no livro. E, já agora, que este podia ser o seu diário. A Frèches, que também editou recentemente em Portugal a trilogia «A Imperatriz da Seda» (Bertrand), esse é o melhor elogio que podemos fazer.