11/06/2026
No final da sua vida, Ingmar Bergman (1918-2007), abandonando o cinema e o teatro, atira-se à produção literária com a mesma obsessão. Dando-se conta de que o tempo, o seu, se está a esgotar, dedica-se a uma escrita premente, vertiginosa, para dar continuidade à tarefa de preencher as lacunas do seu passado, esgravatar as suas repressões íntimas, e responder às questões que ao longo da vida o atormentaram, e que obstinadamente lhe foram escapando.
Com sessenta e nove anos lança o seu primeiro livro assumidamente literário (A Lanterna Mágica), que tem um excelente acolhimento do público e da crítica. Confiante, inicia, sem demoras, a sua derradeira trilogia, que a Dois Dias editará na íntegra: As melhores intenções, Filhos de domingo, Confissões privadas.
Neste primeiro volume, As melhores intenções (expressão que é usada ao longo destas páginas com um sarcasmo e um humor implacáveis), Bergman entrega-se à experiência irracional, que foge ao seu domínio, de ligar o seu fim ao seu início. Mas que início é este, para Bergman? No caso de As melhores intenções, o seu método livre de engenhos e amarras literárias, liberta-o para alcançar um passado longínquo apetecível, misterioso e enigmático – o aquém da sua própria existência física. Através destas páginas vai formando um túnel suficientemente comprido que o leve à superação das distâncias impossíveis, garantindo o acesso, através de um trabalho tão metódico quanto despreocupado com as provas factuais, aos momentos que antecedem o seu nascimento. Bastam-lhe, enquanto substância estimulante, as fotografias dos álbuns de família que herdou (e esparsos depoimentos e documentos), para entrar nas imagens, e ser-lhe possível, ao deambular por lá, a sua escrita fluir.
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