28/10/2012
A palavra de hoje : Xurdir.
Xurdir
Pousou o marcador preto e voltou a olhar-se no espelho.
Estava perfeito. Parecia mesmo que lhe faltava um dos dentes da frente. Dava-lhe um ar muito mais miserável. A mulher, naturalmente desdentada, não precisava desses artifícios.
Natalino, o filho, esperava na rua ao lado do seu fiel amigo, Lamões, o cão zarolho.
O cão esteve para se chamar Camões, mas o olho que lhe faltava não era o do lado de cá... era o do lado de lá.
Finalmente os pais saíram de casa, andrajosos… para terem um ar mais convincente.
Todos os sábados iam para junto da praça arrumar carros. Não é que precisassem. Era apenas uma maneira de arranjar dinheiro para alguns extras… um vestido novo, umas sapatilhas para o Natalino, pagar o canal da bola do pai. E resultava.
Natalino ficava à porta da praça com o Lamões sempre ao seu lado direito. Natalino era uma espécie de olho esquerdo do Lamões.
Natalino nunca dava o dinheiro todo a seus pais. Planeava fugir de casa… ouviu dizer que se ganhava mais dinheiro a pedir nos mercados de Paris.
Os pais de Natalino tinham pouco em comum… digamos que se completavam.
O pai gostava de peito, do frango, a mãe gostava das coxas. O pai era do Benfica mas gostava de azul, a mãe era do Porto mas gostava da cor verde.
Em comum, tinham o vício dos passatempos… a mãe gostava de Sudoku, o pai era louco por Palavras Cruzadas.
O pai do Natalino era muito bom a fazer Palavras Cruzadas mas nesse dia não estava a conseguir preencher todos os quadradinhos brancos daquela grelha.
- Hum!... Fazer pela vida, seis letras… mulher, sabes esta?
- Seis letras?... não estou a ver.
Paulo Freixinho