05/08/2026
𝐀 “𝐀𝐫𝐜𝐚 𝐝𝐚𝐬 𝐋á𝐠𝐫𝐢𝐦𝐚𝐬”: 𝐉𝐨𝐚𝐪𝐮𝐢𝐦 𝐝𝐞 𝐕𝐚𝐬𝐜𝐨𝐧𝐜𝐞𝐥𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐬 𝐑𝐞𝐧𝐝𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐁𝐢𝐥𝐫𝐨𝐬
Agraciado há precisamente 100 anos, a 5 agosto de 1926, com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, destinada a distinguir altos méritos literários, científicos e artísticos, Joaquim de Vasconcelos é, frequentemente, apontado como um dos fundadores da História da Arte em Portugal enquanto disciplina assente em investigação, método e documentação.
Joaquim António da Fonseca de Vasconcelos nasceu no Porto em 1849, tendo sido casado com Carolina Michaëlis. Foi historiador, crítico de arte, musicólogo, museólogo, professor, publicista e uma das figuras mais influentes da cultura portuguesa de finais do século XIX e início do século XX. Teve, igualmente, um importante papel na divulgação e promoção das “artes industriais e caseiras”, incluindo cerâmica, ourivesaria, tecidos, bordados e rendas. Era, inclusivamente, colecionador de rendas de bilros.
A sua formação alemã marcou profundamente o seu modo de trabalhar: valorizava o rigor documental, a comparação, o estudo direto das obras, a bibliografia especializada e a relação entre arte, história, técnica e educação.
No campo da arte portuguesa, Joaquim de Vasconcelos teve um papel pioneiro. Defendeu a necessidade de estudar a arte nacional com base em documentos, obras concretas e análise crítica, afastando-se de leituras vagas, lendárias ou puramente patrióticas.
Foi também uma figura central na defesa do ensino artístico. Para Vasconcelos, o desenho era uma base essencial, não apenas para as belas-artes, mas também para as artes industriais e para a melhoria da produção artesanal e fabril. Acreditava que a educação estética e técnica podia contribuir para elevar a qualidade dos produtos portugueses, formar operários e artistas, educar o gosto do público e fortalecer a economia nacional.
Essa preocupação levou-o a envolver-se diretamente no movimento associativo e expositivo portuense. Foi secretário-geral da Sociedade de Instrução do Porto, participou na criação e dinamização do Centro Artístico Portuense e colaborou na revista 𝐴 𝐴𝑟𝑡𝑒 𝑃𝑜𝑟𝑡𝑢𝑔𝑢𝑒𝑧𝑎.
No domínio museológico, Joaquim de Vasconcelos ficou especialmente ligado ao Museu Industrial e Comercial do Porto (MICP), do qual foi conservador e diretor. Defendia os museus industriais como instrumentos pedagógicos, capazes de formar artistas, operários, industriais, comerciantes e consumidores. Para ele, o museu não devia ser apenas um depósito de objetos, mas uma escola visual, uma “montra” de materiais, técnicas, modelos e tradições.
É neste contexto que se compreende o seu interesse pelas artes industriais e caseiras. Vasconcelos participou e organizou várias exposições industriais no Porto, como as de cerâmica, ourivesaria e tecidos, e esteve ligado a iniciativas semelhantes noutras cidades. A sua intervenção visava estudar, classificar, valorizar e renovar produções tradicionais portuguesas, procurando evitar o seu desaparecimento e melhorar a sua qualidade técnica e artística.
A ligação de Joaquim de Vasconcelos às 𝐑𝐞𝐧𝐝𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐁𝐢𝐥𝐫𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐕𝐢𝐥𝐚 𝐝𝐨 𝐂𝐨𝐧𝐝𝐞 surge precisamente nesse quadro. Na I Exposição-Bazar de Belas-Artes, realizada em 1881 no Palácio de Cristal do Porto, o único expositor de rendas foi Joaquim de Vasconcelos, enquanto colecionador, com referência a “rendas e bordados” no catálogo da exposição.
Para Vasconcelos, estas rendas não eram simples ornamentos domésticos. Eram testemunhos de saber técnico, de trabalho feminino, de tradição local e de identidade artística portuguesa. Ao expô-las em contexto de belas-artes e artes industriais, contribuiu para lhes dar visibilidade pública e estatuto cultural. A sua ação ajudou a deslocar as rendas do espaço doméstico e comercial para o campo do estudo, da exposição, da museologia e da valorização patrimonial.
A sua visão tinha também uma dimensão social. Vasconcelos mostrou-se atento às condições de vida dos artífices e operários. No caso das rendilheiras, criticou a precariedade do seu trabalho, os baixos preços pagos pelas peças e a dependência de intermediários:
“[𝑎 𝑟𝑒𝑛𝑑𝑖𝑙ℎ𝑒𝑖𝑟𝑎] 𝑝𝑎𝑔𝑎 𝑒𝑚 𝑝𝑟𝑖𝑚𝑒𝑖𝑟𝑜 𝑙𝑢𝑔𝑎𝑟 𝑜 𝑝𝑎𝑑𝑟ã𝑜, 𝑜 𝑑𝑒𝑠𝑒𝑛ℎ𝑜; 𝑝𝑎𝑔𝑎 𝑑𝑒𝑝𝑜𝑖𝑠 𝑜 𝑝𝑖𝑞𝑢𝑒. 𝑆𝑎𝑏𝑒𝑟 𝑝𝑖𝑐𝑎𝑟, 𝑖𝑠𝑡𝑜 é, 𝑚𝑎𝑟𝑐𝑎𝑠 𝑎𝑠 𝑙𝑖𝑛ℎ𝑎𝑠 𝑐𝑎𝑟𝑎𝑐𝑡𝑒𝑟í𝑠𝑡𝑖𝑐𝑎𝑠 𝑑𝑜 𝑑𝑒𝑏𝑢𝑥𝑜, 𝑛𝑜 𝑐𝑎𝑟𝑡ã𝑜, 𝑐𝑜𝑚 𝑎𝑙𝑓𝑖𝑛𝑒𝑡𝑒 é 𝑠𝑒𝑔𝑟𝑒𝑑𝑜 𝑡ã𝑜 𝑠𝑖𝑛𝑔𝑢𝑙𝑎𝑟, 𝑐𝑜𝑚𝑜 𝑎 𝑚𝑖𝑠𝑡𝑒𝑟𝑖𝑜𝑠𝑎 𝑎𝑟𝑡𝑒 𝑑𝑒 𝑐𝑜𝑛𝑑𝑢𝑧𝑖𝑟 𝑢𝑚 𝑙á𝑝𝑖𝑠 𝑠𝑜𝑏𝑟𝑒 𝑜 𝑝𝑎𝑝𝑒𝑙! 𝑃𝑎𝑔𝑎, 𝑒𝑛𝑓𝑖𝑚, 𝑎 𝑙𝑖𝑛ℎ𝑎 𝑐𝑜𝑚 𝑢𝑠𝑢𝑟𝑎; 𝑒 𝑑𝑒𝑝𝑜𝑖𝑠 𝑑𝑒 𝑐𝑜𝑛𝑐𝑙𝑢í𝑑𝑎 𝑎 𝑜𝑏𝑟𝑎, 𝑣𝑒𝑛𝑑𝑒-𝑎, 𝑓𝑜𝑟ç𝑎𝑑𝑎 𝑝𝑒𝑙𝑎 𝑓𝑜𝑚𝑒, 𝑎𝑜 𝑑𝑒𝑠𝑏𝑎𝑟𝑎𝑡𝑜, 𝑎 𝑢𝑚 𝑎𝑠𝑡𝑢𝑡𝑜 𝑛𝑒𝑔𝑜𝑐𝑖𝑎𝑛𝑡𝑒, 𝑜𝑢 𝑒𝑛𝑡𝑟𝑒𝑔𝑎-𝑎 𝑎 𝑢𝑚𝑎 𝑚𝑢𝑙ℎ𝑒𝑟 𝑞𝑢𝑒 𝑠𝑎𝑏𝑒 𝑐𝑜𝑟𝑟𝑒𝑟 𝑡𝑒𝑟𝑟𝑎𝑠, 𝑒 𝑣𝑎𝑖 𝑝𝑒𝑟𝑒𝑔𝑟𝑖𝑛𝑎𝑛𝑑𝑜 𝑑𝑒 𝑙𝑢𝑔𝑎𝑟 𝑒𝑚 𝑙𝑢𝑔𝑎𝑟 𝑐𝑜𝑚𝑜 𝑢𝑚 𝑝𝑒𝑞𝑢𝑒𝑛𝑖𝑛𝑜 𝑏𝑎ú 𝑑𝑒 𝑓𝑜𝑙ℎ𝑎, 𝑜 𝑏𝑎ú 𝑑𝑎𝑠 𝑟𝑒𝑛𝑑𝑎𝑠, 𝑞𝑢𝑒 𝑠𝑒 𝑝𝑜𝑑𝑒𝑟𝑖𝑎 𝑐ℎ𝑎𝑚𝑎𝑟, 𝑐𝑜𝑚 𝑚𝑎𝑖𝑠 𝑟𝑎𝑧ã𝑜, 𝑎 𝑎𝑟𝑐𝑎 𝑑𝑎𝑠 𝑙á𝑔𝑟𝑖𝑚𝑎𝑠”.
Apesar do seu entusiasmo e da importância das suas ideias, muitos dos seus projetos enfrentaram dificuldades. O Museu Industrial e Comercial do Porto, que ajudou a estruturar e dirigir, acabou por ser extinto oficialmente em 1899. Em 1932, a coleção de cerâmica do MICP foi integrada no Museu Soares dos Reis, o mesmo vindo a suceder com a coleção de rendas, em 1940.
Joaquim de Vasconcelos foi uma figura decisiva da cultura portuguesa oitocentista. No caso das Rendas de Bilros de Vila do Conde, a sua importância está em ter reconhecido nelas não apenas um produto artesanal, mas uma expressão de arte, técnica, trabalho e identidade. Ao apresentá-las em exposições, ao integrá-las no discurso das artes industriais e ao defendê-las como património a estudar e preservar, contribuiu para a sua valorização pública e museológica.